O homo apartamentus e suas estratégias de autopreservação

por Caio Uehbe

Os homo apartamentus são uma espécie de hominídeos endêmicos das selvas de pedra e de hábitos muito peculiares, principalmente relacionados à autodefesa e a sua preservação enquanto espécie. 

Divididos espacialmente em agrupamentos verticais, distribuídos ao longo de seu habitat, o homo apartamentus é cercado por espécies vizinhas com uma cultura muito similar a sua. Apesar dessas similaridades, no entendimento do homo apartamentus, eles possuem diferentes classificações, como por exemplo os homo miserables, homo meliantes e homo habilidosus.

A categorização em relação aos povos vizinhos, realizada pelo homo apartamentus, é de difícil assimilação para quem não coaduna da mesma cultura deles. Na tentativa de entender um pouco mais sobre essa espécie endêmica, de habitats tão peculiares, e tentando buscar uma possível lógica por trás das ações e da forma de organização do homo apartamentus, presenciei um dos eventos anuais rotineiros dessa exímia e, ao mesmo tempo ambígua espécie, em um de seus agrupamentos verticais em uma selva de pedra de um país sul-americano.

No período de aproximadamente 1/12 avos de uma volta completa do planeta Terra em torno do sol – por alguns também chamado de mês – os homo apartamentus se reúnem para a discussão de assuntos considerados relevantes a sua sobrevivência em seu agrupamento vertical local.

Cheguei para a realização da minha observação com a reunião recém começada, podendo desse modo observá-los, a princípio, sem ser notado.

De imediato, pude observar uma certa hierarquização na discussão dos assuntos que estavam sendo colocados em pauta, devido a forma que se organizavam espacialmente. No espaço coletivo desse agrupamento local, a maior parte dos membros estava sentada, de modo não uniforme, voltada para uma espécie de altar, onde havia uma mesa com dois homo apartamentus sentados e um de pé.

O que se localizava de pé não fazia parte do agrupamento local, havia sido chamado pelo aparente líder do grupo para propor novas medidas de prevenção, ou seja, de segurança, contra os maiores inimigos dos homo apartamentus: os homo miserables e os homo meliantes.

Como meio de garantir a sua segurança os homo apartamentus eventualmente contratam espécies dos homo habilidosus para desenvolverem essa função, tendo em vista que a maior parte do seu tempo o homo apartamentus está fora de seus agrupamentos locais buscando meios dos mais variados para a sua sobrevivência. . Porém, a eficácia dessa segurança estava sendo colocada em xeque pelo homo apartamentus em pé. Este propunha formas mais eficientes de prevenção a eventuais invasões dos inimigos, através de um sistema de vigilância à distância, que substituiria os homo habilidosus presenciais por câmeras, cercas elétricas e uma rede de comunicação com homo habilidosus localizados em outro agrupamento. Um dos argumentos era que os homo habilidosus localizados no agrupamento podiam ser facilmente rendidos pelos inimigos.

O argumento mais forte pela substituição dos homo habilidosus pelo novo sistema à distância estava relacionado a uma suposta “condição de sufocamento monetário” pela qual os homo habilidosus colocavam os homo apartamentus ao realizarem os seus serviços. Para explicitar melhor essa situação aos presentes, o líder distribuiu para cada membro do agrupamento papéis com dados numéricos complexos, mas simplificados pelo líder em forma de tabela, indicando como ocorria esse sufocamento monetário.

Curioso, peguei um desses papéis para ler. Entendi que cada homo apartamentus pagava a cada mês, um valor fixo para custear a manutenção do agrupamento local. Esse valor girava em torno de $ 800 do dinheiro local. Esse agrupamento tinha cerca de 64 subgrupos familiares pagantes dessa quantia. A grande queixa era que esse valor pago era muito alto e que a única forma de reduzir esse valor em $ 200 – passando de $ 800 para $ 600 –  era realizando essa mudança na segurança.

Uma questão muito curiosa, levantada por muitos homo apartamentus, era o elevado valor que eles pagam para cada homo habilidosus que cuidava da segurança daquele agrupamento, aproximadamente $ 1400 por mês, fora o que eles chamavam de “maiores razões para o sufocamento” e justificativa para o corte de gastos, os ditos encargos trabalhistas.

Resolvi tentar entender melhor o que eram esses encargos e descobri que, pelas regras locais, cada homo habilidosus contratado deveria receber por parte dos homo apartamentus, que requeriam o seu trabalho, um fundo de garantia, recolhido a cada pagamento para que quando o homo habilidosus fosse substituído conseguisse sobreviver até achar outra ocupação. Dentro desses encargos o que gerava a maior revolta era em relação a um adicional de 40% que deveria ser pago a mais sobre o valor recolhido durante o tempo que ele permaneceu no agrupamento, caso a sua saída ocorresse por opção de quem o contratou.

Por curiosidade, resolvi ver mais de perto esses valores. O homo habilidosus empregado há mais tempo, o equivalente a 10 voltas do planeta terra em torno do sol, caso fosse substituído, receberia pelo seu tempo de trabalho, pasmem, $ 10 mil. Os homo apartamentus estavam revoltados com isso. Como esses espécimes que ocupam funções inferiores e subjugados aos evoluídos, eleitos e obstinados homo apartamentus, teriam direito a uma quantia tão grande? Quantia essa que representa para a maioria dos homo apartamentus presentes o equivalente ao que eles ganham em um mês se aventurando na selva de pedra em busca dos meios de sua subsistência. “Que ousadia!”, diziam os mais exaltados. “Onde vamos parar?”, se questionavam outros.

Constrangido, um homo habilidosus ao fundo acompanhava tudo em silêncio, intimidado e incomodado com a discussão. Eu pensava comigo mesmo, será que não há ninguém capaz de questionar o que está acontecendo?

Quando perdia as esperanças de que algo acontecesse, um homo apartamentus, um tanto quanto irritado e incomodado, sentado de canto, ao fundo, que não se comunicava com os demais, pediu a palavra. Alguns cochicham de canto antes de ouvi-lo, outros viram o rosto, até que ele começa a falar: “Muito me incomoda e espanta as coisas que ouço nessa reunião. Os senhores aqui presentes clamam por segurança, temem por suas vidas, identificam inimigos em comum, os homo miserables e homo meliantes, mas não enxergam o óbvio! Que esses que vocês aceitam como homo habilidosus dentro de seus agrupamentos, pela lógica posta aqui, serão os nossos inimigos de amanhã! Investimos em ‘segurança’ gerando a cada dia mais a situação de nossa insegurança. Insegurança que existe por um motivo lógico! Pelo fato de vocês ganharem dez vezes mais que um homo habilidosus e achar que eles sufocam vocês com seus direitos. E o que fazem quanto a isso? Os substituem por máquinas, câmeras, ou por uma nova categoria de espécie que surge a cada dia nessa selva, o homo tercerizadus, que seria muito melhor classificado como o homo superexploradus. E, o mais óbvio, ninguém enxerga! Que os homo miserables e os homo meliantes são a cada dia numericamente maiores que nós, e porquê? Porque procriam mais rapidamente? Não! Porque nós os criamos! Os homo habilidosus, que hoje convivem conosco, serão os homo miserables e os homo meliantes de amanhã! E, porquê? Por $ 200. Por $ 200 a menos que cada um desse agrupamento decide economizar. Lamento pertencer ao mesmo agrupamento que vocês”.

Um pouco em êxtase e sem fôlego, quando dou por mim todos estão me olhando e, ao meu lado alguém timidamente sorri e me cumprimenta, noto que era o homo habilidosus que também acompanhava a reunião e, quando retomo minha respiração normal, percebo que, na verdade, esse homo apartamentus que havia se levantado e pedido a palavra era eu.

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