Escuta na educação em tempos de pandemia…

Por Eliana Scaravelli

A educação infantil nos ensina na contemporaneidade a partir de diferentes autores a diferença entre os verbos ouvir e escutar. Ouvir seria simplesmente valer-se ordem física do humano. Ouvimos muita coisa o tempo todo: o barulho do ônibus que passa lá fora, a máquina de lavar roupa, a furadeira do vizinho um andar acima…

Escutar é mais. É por atenção atenta e significativa àquilo que chega aos nossos ouvidos. É considerar – podendo discordar, evidentemente – aquilo que nos é dito, mas partir disso, fazendo escolhas para elaborar os próximos passos da nossa jornada. Escutar, portanto, implica diálogo. Implica considerar que o sujeito que temos à nossa frente – e o que ele pensa – importa.

Ainda que de forma talvez até simplista é ‘mais ou menos’ assim que nascem os projetos nas escolas da infância. Colocamos atenção ao que nos é dito pelas crianças, anotamos suas perguntas, fazemos algumas escolhas, devolvemos a elas suas perguntas instigando-as para que elaborem hipóteses, trilhamos assim a construção de um projeto, um todo de descobertas, que lhes seja significativo.

A maleabilidade curricular da infância nos permite tudo isso com muita tranquilidade – bobo é quem não faz essas coisas  ‘simples’ e anda como caranguejo pedindo exercícios repetitivos, sem sentido para os pequenos. Sim, ainda há aqueles que o fazem, muitas vezes colocando a ‘culpa’ na sociedade leiga que assim deseja a educação para seus filhos. Quando escuto essa justificativa para um ato educativo que desconsidera, por completo, a potencialidade, curiosidade e vivacidade dos pequenos, penso se um médico permitiria a um paciente escolher entre um tratamento recomendado pelas orientações médicas mais atuais ou um tratamento antigo. Se, diante de uma pessoa com AIDS, o médico ofereceria as duas opções “só o AZT ou o coquetel anti-HIV mais completo que temos disponível na atualidade?” Enfim… Mas, essa discussão é complexa, daria outro texto! Quem sabe em outra oportunidade?

O currículo na infância é a própria vida das crianças. Partimos da vida e dos seus questionamentos para elaborar nossos percursos e caminhadas. Há ainda, vale dizer, todo um esforço de discussão junto aos companheiros de ensino fundamental para que, evidentemente, compreendendo as especificidades deste segmento, a ‘logística’ do processo de ensino-aprendizagem desta etapa pudesse ser mais próxima dos educandos, tal qual se busca fazer cotidianamente nas escolas de educação infantil.

Pois bem, é partindo deste preâmbulo que gostaria de convidar para uma reflexão a respeito do que vem sendo feito da educação nesses tempos tão revoltos de pandemia.

O corona vírus chegou. De imediato, aulas em suspenso para alguns e para outros simplesmente a ordem: ‘Virem a chavinha!’, transformem o presencial em virtual. Simples, não?

Olhando para a história recentíssima que se desenhou a partir de então, penso que quem fez a escolha de suspender as aulas de imediato, mesmo que no ‘susto’, teria uma vantagem: tempo para iniciar, ao menos, a digestão deste momento tão ímpar e diante do furacão de possibilidades da implantação de uma educação à distância, dialogar, enlevar questões, levantar hipóteses, fazer escolhas…

Pois bem, parto então agora, do meu lugar de fala, que é o da rede pública onde atuo. Duas semanas de recesso: gestores (supervisores, diretores e coordenadores) e quadro de apoio trabalhando remotamente ou em plantões presenciais nas unidades. Duas semanas de silêncio e dúvidas: O que será feito quando do fim do recesso?

48 horas antes do final de semana que antecederia a ‘volta às aulas’, as cartas começam a ser colocadas na mesa: materiais impressos com conteúdo para dois meses seriam encaminhados às casas dos estudantes, professores e estudantes teriam acesso a uma plataforma online privada para postagem de atividades de maneira assíncrona, merenda para alguns…

Bem vindo ao caos: profissionais contra as plataformas online, ‘treinamentos’ aligeirados para utilização de plataformas, discussões sobre a qualidade e pertinência dos materiais impressos que chegariam nas casas dos estudantes, indignação em relação à política de segurança alimentar oferecida aos alunos nesses tempos…

Então, cabe a pergunta: Por que não foi feita qualquer escuta junto à rede – minimamente que fosse – no tempo do recesso, quando parte de seus profissionais estava trabalhando para pensar em propostas para este momento? Creio, inclusive, que diante da situação instalada até os professores poderiam – e gostariam – de ser consultados remotamente sobre as direções a serem adotadas. Nossa rede tem exemplos históricos e significativos de escuta, inclusive, nesta gestão, haja vista, por exemplo, o movimento de consulta pública, realizado em 2017/8, para a elaboração do currículo da cidade para a educação infantil. Por que alijar de decisões que irão marcar, no mínimo metade do ano letivo, todo e qualquer sujeito que não trabalhe dentro do prédio da Secretaria de Educação?

Aliás, de uns tempos para cá, a lógica do capital e das legislações baseadas no ‘cumpra-se’ vem marcando negativamente uma rede cujo valor era ser a vanguarda no ensino público, ainda que com dificuldades mil na implantação de projetos e inovações, diante do desafio que uma rede tão robusta numericamente evidentemente impõe.

Os desencontros, quase um mês após a volta do recesso, permanecem. Desencontros que, lá atrás, muitos profissionais da rede anteviam: os tais materiais impressos não chegaram à totalidade das residências (Será que a secretaria lembra que há alunos nossos que sequer têm ‘endereços oficiais’?); os contatos com as famílias, quando alcançados, nos mostram a pauperização que se agiganta a cada dia – não há internet para acessar conteúdos, não há sequer comida na casa de muitas de nossas crianças.

Na outra ponta, a cobrança descabida que visa números: Quantos acessaram as plataformas? Os professores estão trabalhando? As equipes gestoras estão trabalhando nos plantões descabidos e homogêneos impostos pelo órgão central? E, vocês supervisores, trabalham? Controles sistemáticos que colocam gestores, muitas vezes contrariados, como correias de transmissão. Lógicas de trabalho – e estudo – que desconsideram a(s) vida(s) de crianças, famílias e profissionais nos tempos presentes. Não há normalidade no momento em que vivemos, o ‘home office’ não ocorre em condições ‘ideais’ – trabalhamos e cuidamos da casa e dos nossos dentro da nossa jornada de trabalho, há a angústia pessoal dos que perderam entes queridos, há o medo da perda no futuro, há a angústia docente diante das situações materiais e emocionais das famílias dos nossos educandos que vão sendo percebidas quando os contatos ocorrem. E, felizmente, algo que a secretaria não previu e que não precisou colocar em nenhuma instrução normativa: há a solidariedade de uma rede inteira de profissionais da educação em prol das famílias desassistidas dos nossos educandos, doando alimentos, roupas… Esse é, certamente, um presente em meio à pandemia. A tal desejada – e necessária – aproximação escola-família vem se dando de maneira muito mais efetiva nos diversos territórios da nossa cidade e muito em razão, principalmente, da incompetência de uma Prefeitura que vergonhosamente recorreu ao Ministério Público para não dar a todos os educandos matriculados o benefício – eu diria, o direito! – ao cartão merenda, criado para garantir a segurança alimentar dos educandos.

Mas, o que tudo isso tem a ver com o início deste texto? Incorremos no risco de, com decisões atabalhoadas e surdas à rede, traímos as próprias concepções que estão no âmago da organização do processo de ensino-aprendizagem. Os profissionais que constituem a rede sequer são ouvidos, muito menos, escutados e, com isso, se perde o diálogo, a construção de soluções criativas, que ousaria dizer, poderiam ser mais adequadas para o momento atual. O diálogo, o aprender em companhia, como a educação infantil nos ensina, nos afasta de um pensamento convergente – repetitivo e acrítico – e nos leva à riqueza do processo divergente, mais criativo, heterogêneo, mais próximo das necessidades do real.

Somos uma rede, mas não somos todos iguais. Onde está a equidade, princípio fundante do Currículo da Cidade, para todos – profissionais da educação, estudantes e famílias – neste momento?

Em prol de um apressamento de ações, decisões são tomadas sem consulta alguma, pois são consideradas como as ‘melhores’. Melhores para quem e decididas por quem? Não há sequer diálogo, como dissemos acima, com os gestores que, no limite de suas funções, poderiam ser algo representativo de uma rede em um período de recesso. Os supervisores, por exemplo, tão ‘temidos’ pela representação histórica de fiscais têm nas suas competências a responsabilidade de compartilhar com a secretaria as necessidades das unidades escolares. Em que momento são eles chamados para isso? Só vem sendo lembrados, por ora, para serem veículos de cobrança e, não, como deveriam ser, de acompanhamento em uma perspectiva formativa e de ampliação de oportunidades de experiências educativas.

Incorremos no risco também de, na ausência do diálogo, rumarmos para o caminho irrefletido das práticas instrucionais do ensino. Há sim uma perspectiva histórica do tecnicismo educacional que ronda este momento tão imerso nas tecnologias, sobretudo no segmento do ensino fundamental, que não pode ser desconsiderado.

Com tudo isso, não estou dizendo que nós, profissionais do ensino público, deveríamos simplesmente ficar em nossas casas, resguardados do vírus, sem fazer nada, esperando a pandemia passar, sem sequer pensarmos em propostas para dar continuidade aos processos pedagógicos que eram desenvolvidos até então em cada unidade escolar. Não. Estranho seria se nos afastássemos de tudo, justamente agora. Ora, somos agentes públicos, precisamos ter agência e, mais, autoria dentro de uma rede. Como podemos vislumbrar contribuir para a formação de sujeitos com essas qualidades, se há um Estado que restringe esse ‘humano’ em nossas ações profissionais, que cerceia uma prática autônoma, construída com seus pares, atenta às especificidades das nossas comunidades educativas?

Esses “pitacos” indignados são para nos fazer pensar que, sem nos darmos conta, a lógica do capital financeiro, que visa tão somente os resultados – o ‘lucro’, que supostamente não deveria existir dentro da educação – e toda a antidemocracia que traz em seu bojo, pode sim, de maneira furtiva estar entrando nas nossas secretarias de educação e, consequentemente, dentro de nossas escolas. É preciso estar atento e forte, como diz a música, e resistir, mostrando as contradições e exigindo maior participação na tomada de decisões. A gestão democrática, princípio da educação, lavrado na Constituição Federal, já sofre para se efetivar, muitas vezes, dentro das próprias escolas, mas, vejam lá, que belo ‘des-exemplo’ uma secretaria nos dá ao agir da maneira como vem agindo em tempos tão difíceis! Haja resiliência para tanto macramê[1]!


[1] Trabalho de renda feito de linhas trançadas e amarradas, que se entrelaçam formando variados nós e desenhos. O que seria a educação senão um emaranhado de fios de vida que se tocam, convergem e divergem, formando várias propostas?

2 comentários sobre “Escuta na educação em tempos de pandemia…

  1. Faltou e falta escuta, sobra a lógica do “cumpra-se”. A preocupação dos atuais governantes demonstra ser a aplicação de conteúdos, a avaliação a qualquer custo, e o cumprimento de uma jornada para que possam justificar a conclusão de um ano letivo que se perdeu. As relações foram perdidas, o tempo foi perdido. As inquietudes são outras. Nós adultos, com um pouco mais de acúmulo dado os anos de existência, sofremos por não saber lidar com o incerto. E essas crianças, jovens e estudantes, o que pensam? Como estão, verdadeiramente, lidando com isso? Acertar o botão, quando disponível e acessível, é fácil. Difícil é querer bancar a suposta normalidade dentro do caos.

    Excelente construção, Eliana. Um texto que pode, e deve, ser aplicado em todas as esferas.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s