Corona Vírus e a Crise da Responsabilidade Social

por Lais Uehbe

São mais de dois meses. Dois meses de mudanças abruptas, de distanciamento de grande parte daquilo que significa e dá sentido para a nossa vida, dois meses de medo, pelos seus e pelos outros, dois meses de perdas. Ainda que a gente tente, no dia a dia, contabilizar pequenos ganhos – o tempo a mais para a leitura, aquela nova receita que agora consigo fazer, a arrumação que os armários da casa há anos pediam… Ainda que, o momento é marcado única e exclusivamente pela falta, pela ausência. Há a falta de trabalho, milhões perdendo o emprego, o alimento para sustentar a sua família que se ausenta junto com a falta de dinheiro para pagar o aluguel, ocasionando a falta de moradia. O temor de ficar doente pela falta da cura, de assistência e também de leitos de hospitais. Por vezes, e já alcançamos mais de mil por dia, a ausência ganha um nome, um rosto e um endereço, e com certeza é essa a mais dolorida de todas, porque irreversível, e ela se apresenta na mesa do jantar, na cadeira vazia, que não vai voltar a ser ocupada, nunca mais. A falta se faz tão presente, que até em ações positivas, ela prevalece. Não há cesta básica para todo mundo, não há auxílio para todos, e essa insuficiência sufoca porque ela nos preenche por completo pela ausência de perspectiva, se transformando em outra muito dolorida: a falta de esperança.

Nesse processo de contabilização de ausências, há a mais grave de todas, a ausência de responsabilidade do governo, de um direcionamento efetivo, de planos de ações. Há ausência de estudos, de implantação de medidas únicas que possam nos tirar dessa situação com diminuição de danos, que nesse caso, significam vidas, e é absurdo termos que afirmar o óbvio, de que toda vida importa. Mas é preciso dizer. Toda vida importa e não importa a qual classe social ela pertença, qual espaço da cidade ela ocupa, qual o trabalho que ela exerce, qual roupa ela usa, quais lugares ela freqüenta. Essa pessoa existe, é o filho, o sorriso, o amor, o aconchego, o pai ou a mãe de alguém. Todas as pessoas importam, porque estão vivas, porque possuem e são história, porque compõem aquilo que chamamos de sociedade, e, portanto, são também nossa responsabilidade coletiva. Nós somos a nossa responsabilidade coletiva. E o vírus nos escancara isso, todos os dias, quando, ao não tomarmos os cuidados para conter a sua propagação, deixamos o outro em vulnerabilidade. Colocamos a vida do outro em risco. O individualismo não sobrevive ao corona vírus, ele leva consigo milhares de sobrenomes, sorrisos e futuro.

O individualismo transforma-se no que ele sempre foi na nossa sociedade, mas nunca ganhou tanto corpo, forma e concretude: uma máquina mortífera, metralhadora mirada no peito de cada um.

O vírus também nos escancara outra ausência, algo que há tempos está esquecido: Nós somos os responsáveis pela sociedade em que vivemos. Quando uma criança negra é assassinada pela polícia dentro de casa durante uma “ação policial”, quando um morador de rua padece de frio na calçada na madrugada mais fria do ano, quando alcançamos o último lugar na qualidade da educação do país, quando voltamos a ocupar o mapa da fome, quando um menor de idade entra para o crime organizado, quando uma mulher é espancada dentro de casa na frente dos filhos, quando uma criança recebe a sua única refeição do dia na escola, ou quando ela chora de medo e desamparo na escada da sua comunidade, existe apenas um responsável por isso: todos nós. As tragédias que se apresentam como pessoais, são, na verdade, coletivas, porque legitimamo-las no conjunto social. Foram escolhas nossas, enquanto sociedade e são, portanto, nossa responsabilidade e é urgente que nos ocupemos dela. O vírus nos escancara isso, mais uma vez. Todos pertencemos a esse espaço em comum ao qual chamamos sociedade e que nos faz dependermos uns dos outros. Todos somos cidadãos e isso significa que, viver, tornar-se um ser no mundo, é assumir com os demais, uma herança moral, que faz cada qual um portador de prerrogativas sociais (direito a um teto, à comida, à educação, saúde, etc). No limite, a cidadania é uma lei da sociedade que, sem distinção, deveria atingir a todos de forma igualitária. E é responsabilidade nossa, enquanto cidadãos, lutar pela garantia desses direitos. E há tempos que deixamos de ser cidadãos, se um dia de fato já fomos. Há tempos que confundimos culpa com responsabilidade, individualidade com individualismo, direito com privilégio, caridade com justiça social. Deixamos de ser indivíduos solidários, a base de se viver em comunhão, de se compartilhar um espaço comum de reprodução da vida. Sentir-se responsável pelo outro é a essência de se viver em sociedade, é a essência da solidariedade, do coletivo.

É necessário tomarmos consciência da nossa responsabilidade social. É a ausência dela que nos fez caminhar a passos largos para o abismo ao qual nos encontramos.

Responsabilidade é diferente de culpa: Não somos culpados pelo nosso país ter sido o último no mundo a abolir a escravidão, entretanto, enquanto sociedade somos responsáveis por isso e temos a responsabilidade de agir diante disso. Não somos culpados pela chegada do corona vírus no Brasil, mas somos responsáveis no que diz respeito ao que fazer diante dele. Podemos negar a culpa, mas nunca a nossa responsabilidade. A responsabilidade nos leva a agir e a refletir diante das situações. A responsabilidade nos obriga a sairmos do lugar o qual o que acontece com o outro não nos diz respeito, e nos coloca em um caminho comum sobre como agir diante disso. Outro exemplo que explana bem essa diferença é a célebre frase: e daí? Quer que eu faça o que? Típica de quem se apóia na falsa simbiose entre culpa e responsabilidade, de quem nega direitos e cidadania a uma nação, de quem não pode nem ser considerado um cidadão, porque possui em si a ausência do princípio básico da cidadania: a humanidade. O absurdo da fala existe exatamente nesse lugar: pouco importa de quem é a culpa, é necessário que se assuma a responsabilidade pela situação, e a responsabilidade exige que se tomem medidas diante da conjuntura exposta a partir do lugar social que ocupamos. E cabe dizer aqui que todos nós ocupamos um lugar na sociedade e temos, portanto, a nossa dose de responsabilidade social. E volto a repetir: é necessário nos ocuparmos dela.

O que podemos observar nas democracias modernas, e como explicita muito bem o geógrafo Milton Santos, é a existência de uma tensão permanente, uma “guerra”, entre o princípio de igualdade implícito no conceito de cidadania e a desigualdade inerente ao sistema capitalista e à sociedade de classes. E é nesse ponto que é importante afirmar que não estamos individualizando a responsabilidade pela situação caótica a qual nos encontramos, quando falamos indivíduos estamos falando de uma categoria social que pertence a uma classe e a um sistema predeterminado.

O que podemos observar, principalmente nos países que ocupam a periferia da economia mundial, e mais nitidamente em países como o Brasil é a supressão da vida comunitária baseada na solidariedade social e sua superposição por sociedades competitivas guiadas pela busca de status e não mais de valores.

É a supressão do debate sobre os direitos do cidadão – direitos esses que deveriam implicar luta e resistência quando da sua ausência a qualquer cidadão. O que se mostra para nós é que, em lugar de cidadãos, criamos ao longo da história de nosso país, consumidores. E consumidores não se responsabilizam por nada além de seu próprio individualismo, porque o consumo nos dá a falsa sensação de liberdade, entretanto não é liberdade se é individual, se junto dela não se tem uma participação social e política. Consumimos os nossos direitos, consumimos educação, saúde, moradia… Transformamo-los em mercadoria. Trata-se aqui de uma confusão entre liberdade e dominação, porque não se distingue mais aspirações pessoais legítimas e imposições do sistema econômico e político.

É essa problemática que, para mim, aparece como um dos grandes cernes da questão do combate ao corona vírus no Brasil: Nega-se a doença da mesma forma que há anos nega-se a cidadania, nega-se as medidas de prevenção pautando-se por um individualismo assassino, que se mascara em prol do “coletivo”, mas que diz respeito a meia dúzia de pessoas. Quem tem dinheiro vive, quem não tem, morre: De vírus, de fome, pela violência do Estado. A necropolítica. Assassina-se a cidadania – não que não tenha sido assim ao longo dos anos no nosso país – mas essa morte a sangue frio apresenta-nos a falta na sua forma mais perversa: A falta de humanidade – erramos como sociedade e o vírus só fez escancarar esse abismo cruel, esse Brasil extremamente desigual e desumano, racista, eugenista e sem cidadãos.

E, no limite, é isso que o vírus nos mostra: Essa somatória de falta e ausência não são única e exclusivamente conseqüência dele, o abismo não foi construído agora. Ele está presente há muitos anos entre nós. O que acontece agora é que somos obrigados a encarar essa realidade. O abismo se apresenta para nós de forma tão abrupta e cruel quanto à quarentena, a pandemia, as estatísticas, as perdas, faltas e ausências, e todas as mudanças que a situação nos exige. Mas o fato é que: ele sempre esteve aí. E a parte mais triste disso tudo é que foram necessárias milhares de vidas para que parte da sociedade começasse a olhar para ele. E existe, ainda, uma parte que se recusa a olhar, nega o abismo, refletindo claramente que ele mora também dentro da gente, na nossa desumanização. Nietzsche costumava dizer que quando olhamos muito para o abismo, ele olha de volta para nós. E embora grande parte da nossa sociedade busque descanso da consciência se eximindo da culpa pela tragédia, não há travesseiro que aguente o peso da responsabilidade que carregam por tudo o que está acontecendo. A história estará sempre aí para nos mostrar.

3 comentários sobre “Corona Vírus e a Crise da Responsabilidade Social

  1. Que texto REFLEXIVO!
    Quando nos perguntamos, quando é que a vida volta ao normal, estamos querendo dizer, exatamente o quê?
    Eu quero voltar á vida normal, mas gostaria que esse “normal’ voltasse com princípios HUMANITÁRIOS em todos os setores da sociedade.
    Que a desigualdade social, voltasse drasticamente diminuida; que a economia voltasse forte, geradora de empregos formais, com salários que dignificam qquer ser humano.
    Que a justiça social, fizesse jus ao nome, etc, etc..
    Não custa sonhar.

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  2. É preciso puxar o fôlego para seguir, e acreditar que dessa vez o chacoalhão irá funcionar.

    Excelente texto, Laís. Parabenizo agradecendo por mais essa reflexão.

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