O Esporte como Política

por Caio Uehbe

Falar de esporte e política nos dias atuais tem se tornado cada vez mais um tabu, principalmente se quem estiver com a palavra for alguém do meio esportivo. É comum nos depararmos com situações em que profissionais do meio se posicionam politicamente e são criticados por seus pares, não pelo seu posicionamento em si, mas com o argumento de que não deveriam se posicionar devido a posição que ocupam e pelo o que representam.

O caso mais recente em torno dessa polêmica teve como protagonista o ex-camisa 10 do São Paulo Futebol Clube e atual diretor do clube, Raí, que não disse nada além do óbvio para qualquer pessoa com o mínimo de discernimento de mundo. Raí disse que o presidente tem postura irresponsável e que preferiria a renúncia do presidente diante da sua ingovernabilidade do que um processo de impeachment no atual momento de pandemia que vivemos, algo que seria muito custoso para o país em crise.

Logo vieram as infelizes e hipócritas reações. Segundo veículos da imprensa, conselheiros do clube estariam insatisfeitos com as declarações. Entretanto a reação que mais repercutiu foi a de Caio Ribeiro, ex-jogador do mesmo São Paulo e atualmente apresentador e comentarista esportivo na Rede Globo.

Foram essas as palavras de Caio Ribeiro em programa da Sportv: “Eu não gostei do discurso do Raí porque ele falou muito pouco de esporte e falou muito sobre política. Ele, por mais que ele fale que é a opinião pessoal dele, hoje é o homem forte do São Paulo e as declarações e opiniões que ele emite respingam na instituição. Eu acho que ele tem que falar de esporte. Na hora que ele fala de renúncia, dos hospitais públicos e tudo isso, me parece que ele tem conotações políticas em relação a preferências”.

Raí e Caio Ribeiro

Não sei se intencionalmente ou se reproduzindo o senso comum, que infelizmente impera na nossa sociedade, Caio se apoiou na máxima que “Futebol, política e religião não se discute”. Uma máxima que a ouvidos desatentos soa como tolerante, mas que vem camuflada de um grande autoritarismo. Afinal, para o desapercebido essa máxima passa a impressão de que não devemos discutir certos assuntos respeitando a opinião dos outros. Mas não! Não é essa a real intenção de tal frase! Devemos sim discutir religião, ainda mais nos dias atuais que religiosos fanáticos pretendem impor suas crenças arbitrariamente a toda sociedade, tema que não irei me aprofundar nesse post pois não é o enfoque principal. E discutir futebol? Negar tal discussão é algo tão sem sentido que se a máxima fosse verdadeira não haveria o porquê de tantos programas na TV aberta e fechada debatendo o tema com diversos posicionamentos distintos.

Assim como a religião e o futebol, a política deve e necessita ser debatida por todos e em todos meios possíveis. É dever de pessoas públicas como o Raí, e tantos outros, se posicionarem no momento político em que estamos vivendo.  Entretanto, a  criminalização da política no esporte e na sociedade como um todo não é um “privilégio” dos dias atuais. Ela já acontece há tempos e vem alinhada com intencionalidades das mais perversas. A política é diariamente atacada e deslegitimada pelos meios de comunicação e, tal deslegitimação, é, de forma acéfala, reproduzida a esmo pelas pessoas.

É justamente nesse discurso que coloca a política e o poder público como algo feito por sujeitos desonestos, com interesses escusos, independentemente de partidos e posições políticas – como se ideologias não existissem mais – que perdemos a cada dia mais nossos direitos e o sentido da palavra cidadania.

Quando a política e o poder público se ausentam, quem preenche esse vazio deixado? O grande capital que, no atual estágio de globalização se mostra mais autoritário do que nunca, mas diferente de tempos passados, com um discurso que tenta mostrar o contrário, em um mundo sem restrições, livre de fronteiras, dinâmico e conectado pela internet, etc.

As grandes corporações hegemônicas, assim como os bancos, ocupam o lugar das instituições estatais, tirando o poder dos governantes eleitos e impondo a sua vontade a toda população. Isso faz com que a vida social seja ilegalmente regulada em função de interesses privados determinados. O consumo passa a ser o motor de toda a sociedade e a única forma de se obter o que deveria ser garantido por direito. Assim sendo, consumimos a saúde através dos convênios médicos, consumimos uma dita “boa educação” através do ensino privado, consumimos equipamentos de esporte e lazer nos tornando sócios de clubes, etc. Como aponta Milton Santos,

 “(…) Enquanto constrói e alimenta um individualismo feroz e sem fronteiras, o consumo contribui ao aniquilamento da personalidade, sem a qual o homem não se reconhece como distinto, a partir da igualdade entre todos. (…) esse aprisionamento do indivíduo pelas coisas que ele cria é que conduz a alienação, um processo de ‘fragmentação do conhecimento e, consequentemente, uma distorção da realidade humana’. Alienado, o homem subutiliza suas energias intelectuais.

O consumidor não é o cidadão. Nem o consumidor de bens materiais, ilusões tornadas realidades como símbolos: a casa própria, o automóvel, os objetos, as coisas que dão status. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o turismo e as viagens, os clubes e as diversões pagas; ou de bens conquistados para participar ainda mais do consumo, como a educação profissional, pseudo-educação que não conduz ao entendimento do mundo”. (SANTOS, 2007)

O grande capital avança com seus tentáculos por todos os meios possíveis para a sua reprodução e no esporte não é diferente. Certamente, vivemos hoje o momento áureo dessa apropriação do capital no meio esportivo.

Nesse meio, infelizmente, tudo passa a ser resumido as necessidades do mercado, fazendo com que os esportistas sejam polidos e direcionados a não se posicionarem politicamente, entrando em polêmicas, pois isso seria algo “ruim para os negócios”. Em contrapartida, temos um esporte cada vez mais mecânico e sem “alma”, como por exemplo no futebol, com jogadores impedidos de se manifestarem quando comemoram um gol, sendo punidos com cartão e às vezes até mesmo posteriormente suspensos pelo Tribunal de Justiça Desportiva.Nessa mesma linha, vemos torcidas organizadas censuradas e perseguidas pelo poder público, claramente sob forte influência dos patrocinadores.

Historicamente, porém, a política sempre fez parte do esporte e justamente nos seus momentos mais marcantes. Como não se arrepiar com Jesse Owens fazendo cair por terra as teorias racistas e eugenistas de Adolf Hitler nos jogos olímpicos de Berlim, em 1936, ao ganhar quatro medalhas de ouro, quebrando dois recordes olímpicos? Uma competição marcada – e muito – pela política, desde a intenção de Hitler de mostrar para o mundo a potência que se tornou a Alemanha depois de sua derrota na Primeira Guerra, assim como nos acordos sombrios da delegação estadunidense com o governo nazista, retirando competidores judeus do revezamento 4×100. Mas, infelizmente, o hoje tão exaltado Jesse Owens, vivia na época em um país que, assim como a Alemanha Nazista, segregava não brancos e, por essa razão, Owens sequer foi felicitado pelo presidente estadunidense Franklin Roosevelt em seu retorno à América, tendo continuado a viver como qualquer negro vivia nos EUA naquele tempo: humilhado, excluído, descriminado e impedido de frequentar locais públicos destinados para brancos.

Jesse Owens recebendo medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, 1936

Justamente por isso que, naquele país, política e esporte se misturam e geraram – e ainda geram – competidores simplesmente fantásticos! Modéstia à parte, o meu preferido foi e sempre será Muhammad Ali. “The Greatest” como ele humildemente se autodenominava. Uma autodenominação que também era um ato político em meio a uma sociedade racista e com leis raciais ainda vigentes na época, o pugilista desponta para o mundo vencendo as olimpíadas e posteriormente tornando-se o mais novo campeão mundial dos pesos pesados. Um negro se afirmar “o maior” era um ato político em uma sociedade que os via como inferiores. Ele soube como ninguém transgredir essa lógica perversa enfrentando todo um sistema racista, convertendo-se ao islamismo e à Nação do Islã do também fantástico Malcolm X.

Muhammad Ali foi o maior e será insuperável não somente por “voar como uma borboleta e picar como uma abelha”, se tornando quase imbatível aos seus adversários, mas por saber se posicionar como ninguém em favor de uma causa urgente e infelizmente ainda tão atual. Mesmo perseguido, impedido de lutar,convocado para uma guerra covarde contra o povo vietnamita, ele disse não! “Por que eles deveriam me pedir para colocar um uniforme, ir a dez mil milhas de casa e atirar bombas e balas nas pessoas de cor do Vietnã enquanto as pessoas chamadas de ‘nigger’ em Louisville são tratadas como cachorros e negadas de direitos humanos básicos?”, questionava Ali. Ele não se deu por vencido, não traiu seus ideais para agradar os que o perseguiam e, sua volta por cima veio em um ato político, a chamada “luta do século”, que não teria melhor lugar para ocorrer do que no continente africano, contra George Foreman, vitória que devolveu o cinturão dos pesos pesados ao lugar de onde nunca deveria ter saído.

Muhammad Ali e Malcolm X

A tão temida política marcaria mais uma vez o esporte em 1968, nas Olimpíadas de Verão no México, com a histórica saudação blackpower feita no pódio por Tommie Smith e John Carlos, denunciando a situação dos negros nos EUA mesmo após a abolição das leis raciais, um claro gesto de apoio e simpatia ao Partido dos Panteras Negras. Gesto depois brilhantemente repetido pelo professor Sócrates em um dos movimentos mais mágicos do futebol brasileiro, a democracia corintiana, erigida em um contexto de total falta de liberdade política no país. Infelizmente, Smith e Carlos foram excluídos para sempre do esporte pelo gesto feito, em mais uma demonstração de como o esporte está tomado há muito tempo pelo autoritarismo financiado pelas corporações que lucram com eventos esportivos.

dir: Tommie Smith e Jean Carlo. esq: Sócrates

Mais recentemente, temos os jogadores da NFL e NBA desafiando o sistema racista que vigora nos EUA, ajoelhando-se durante a execução do hino nacional estadunidense antes das partidas em protesto a um país que continua encarcerando e assassinando friamente negros e latinos, mantendo seus executores impunes e protegidos por leis com uma nítida roupagem racista e segregacionista. Não há como não citar o recente assassinato de George Floyd, no Estado do Minessota, por um policial branco que o asfixiou por 8 minutos com o joelho, quando Floyd já se encontrava algemado, rendido e suplicando para que parasse pois não conseguia respirar. Atletas como Colin Kaepernick e LeBron James, do Los Angeles Lakers, se manifestaram mais uma vez através de suas redes sociais, tendo o primeiro até se oferecido para pagar advogados para os manifestantes presos nos protestos contra mais uma morte de um negro causada pela brutalidade policial nos EUA.

Mas ainda há os que criticam tais atos e cabe perguntar: por quê, mesmo com tantas evidências, criticam? Criticam porque estão confortáveis em uma posição privilegiada e no inconsciente dessas pessoas a luta pelos direitos dos demais significaria uma perda desses privilégios que os mantém confortáveis. É justamente esse o ponto a que gostaria de chegar.

Todos que se posicionam contrariamente a essas manifestações políticas, de forma intencional ou inconscientemente, contribuem para uma sociedade desigual que reproduz com naturalidade as desigualdades e preconceitos.

Tentar afastar a política da vida das pessoas é uma forma eficiente de alcançarem seus objetivos, pois é somente através da política que seremos capazes de reverter essa situação. Tudo isso tendo como pano de fundo a manutenção de um sistema socioeconômico pautado na mercantilização de todas as relações e, onde o

“Consumismo e competitividade levam ao emagrecimento moral e intelectual da pessoa, à redução da personalidade e da visão de mundo, convidando, também, a esquecer a oposição fundamental entre a figura do consumidor e a figura do cidadão. É certo que no Brasil tal oposição é menos sentida, porque em nosso país jamais houve a figura do cidadão. As classes chamadas superiores, incluindo as classes médias, jamais quiseram ser cidadãs; os pobres jamais puderam ser cidadãos. As classes médias foram condicionadas a apenas querer privilégios e não direitos”. (SANTOS, 2005)

Na sociedade contemporânea, portanto, o esporte vem se tornando cada dia mais um mero artigo de consumo, afastando-se da premissa de ser direito de todos os cidadãos. É preciso combater essa situação e fazer do esporte mais um dos instrumentos de luta política na garantia de uma sociedade com mais equidade e justiça, livre do racismo e do preconceito cotidiano que custam tantas vidas no Brasil e no Mundo.

Referências Bibliográficas

SANTOS, Milton. “Por Uma outra Globalização”. Editora Record, 12º edição, 2005.

______________. “O Espaço do Cidadão”. EDUSP, 7ª edição, 2007.

2 comentários sobre “O Esporte como Política

  1. Esse texto, veio a público, num momento muito importante pra se confirmar que politica e futebol, não só podem, como devem ser discutidos. Ontem , dia 31 de maio, as torcidas organizadas deram um exemplo de protagonismo na luta pela DEMOCRACIA, como também, um exemplo de como enfrentar atos anti facistas.
    Parece até que o Caio, teve premonição, ao escrever esse texto.
    Vamos aguardar a partir de agora, cada vez mais, movimentos populares se manifestando. É o BASTA, ao autoritarismo, aos assassinatos da população negra e pobre da periferia, ao estado se exceção, aos fora da lei, à impunidade, às Fake News, etc, etc.
    DEMOCRACIA E ESTADO DE DIREITO, JÁ!

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