O Cuidar Como Dimensão Curricular Para Todos: Quem Cuida de Quem Cuida e Educa?

por Eliana Scaravelli

Cuidar e Educar são ações indissociáveis, previstas em diversas legislações e documentos curriculares, quando o assunto é o trabalho realizado junto aos bebês e crianças na educação infantil. O equilíbrio entre essas ações no cotidiano das escolas da infância, no entanto, ainda gera alguma discussão e vez ou outra é preciso restabelecer as pontas deste enlace, reiterando que o cuidar é indispensável, mas que somente ele não dá conta da tarefa docente em um espaço institucionalizado.

E onde fica o cuidar’ no Fundamental? No Médio? E na formação de professores, ele existe? Na prática, “fica bem pouco”, vai se esfacelando… Os currículos, no geral, apesar de preconizarem uma educação que objetiva a formação integral do ser, pouco se detêm na viabilidade prática deste olhar para a inteireza do ser humano, o que contemplaria, a meu ver, a questão do cuidado. O foco passa a ser o processo de ensinagem (de conteúdos) e o cuidar só aparece quando uma situação ou outra o impõe. E, desta forma, vemos nas escolas, de modo ainda muito incipiente ou pontual, ações referentes ao cuidar físico (a típica situação das campanhas contra o piolho que todo mundo já conhece) e, mais recentemente, ao cuidado de saúde mental (prevenção ao suicídio no mês de setembro, por exemplo).

Nesse contexto, o cuidar do outro quando debatido e corporificado no cotidiano das salas de aula advém muito mais da perspectiva individual de cada docente ou da gestão de uma unidade do que de um programa institucionalizado por uma rede de ensino, por exemplo. Esse fato que, a princípio, pode parecer interessante a partir da ótica da defesa da autonomia docente e institucional, às vezes, nos coloca em situações complicadas, onde temos que discutir o óbvio: a importância das ações docentes contemplarem o cuidado nas séries de transição (Dá para ser uma professora de 1º ano, por exemplo, só focada em alfabetizar, sem pensar no cuidado das crianças?) ou ainda ter que “combinar” com alguns professores para considerarem a situação de Fulano ou Beltrano que, por exemplo, perderam a casa ou alguém da família em uma semana de provas… É, ás vezes, tem desses “causos” na humanidade docente e não culpo nós professores por isso, não. Penso que, de verdade, há pouquíssima ou quase nenhuma formação inicial ou continuada que foque nessas questões para os docentes e que, às vezes, entramos todos nós no modus operandi machina e, nessas horas, precisamos, sim, um ponto de inflexão para seguir em frente.

Talvez este momento da pandemia possa ser este ponto de inflexão e, para tanto, precisaremos de formação. De uma boa formação.

Parto deste preâmbulo, já meio alongado, para discutir algo que vem me incomodando nas últimas semanas. Os planos para a volta às aulas, pois é dito a plenos pulmões que é preciso pensar na volta. Vocês já perceberam o quanto pensar só no futuro é angustiante para todos nós? Viver o futuro, sem se apropriar do presente é um erro. Um grande erro, eu acho.

Antes de falar do futuro, precisaríamos ver se ‘está tudo bem’ no presente e parece que não está, né? Penso que poderíamos pensar no que estamos vivendo como um momento de ensino-aprendizagem. E o que fazemos quando ensinamos algo a alguém? Avaliamos se está dando certo no “durante”. É a tal da avaliação em processo, que tanto é citada em TODOS os documentos curriculares. O professor precisa avaliar os educandos continuamente, vendo quem está caminhando e quem não e, a partir daí, lançar mão de outras estratégias, voltar atrás, se preciso for, reconhecer se “todo mundo” não estiver legal que às vezes ele optou pelo caminho errado (E, às vezes, isso acontece! E muito até. Principalmente, quando pegamos uma série com a qual nunca trabalhamos, uma turma no meio do ano que ainda não conhecemos… A gente planeja uma ‘coisa’ que achamos sensacional e damos com burros n’água e não é porque não sejamos bons, mas sim, porque isso é natural das relações humanas: às vezes, não dá certo, ué! E qual o problema? Estamos aqui para errar e acertar, acertar e errar!)

O que vejo como, no mínimo estranho, é que essa concepção de ensinar, avaliar e redimensionar a prática está posta em tudo o que é documento curricular, mas parece que não vale para alguns sistemas de ensino.

Não seria o momento de agora – durante a pandemia – parar e avaliar as ações que foram desenvolvidas até então, mesmo com toda a pressão que, evidentemente, existe por parte dos tecnocratas, que querem porque querem entrar de cabeça e tudo no sistema e precisam dizer que tudo o que fizeram e fazem dá certo, contrariando, vejam só,  a máxima do ensino-aprendizagem que comentamos acima?

Outro dia, acompanhei pela TV, uma autoridade dizendo que assim que os alunos voltassem às escolas, seriam avaliados para saberem o que tinham aprendido e que, a partir desses resultados, as aulas de recuperação, para aqueles com ‘lacunas’, seriam programadas e etc. Que os pais ficassem tranquilos, que todos iriam aprender.

Boas vindas, pessoal! Ficamos não sei quantos dias confinados em casa por conta de um vírus inofensivo, morreram umas pessoas e agora teremos uma avaliação externa para ver como vocês estão! (Aliás, tenho uma quase certeza absoluta que tal avaliação será uniforme e homogênea, tal qual a proposta de solução para os problemas da pandemia, porque somos um sistema, oras!)

Vocês conseguem imaginar esta cena? Eu não. Mas, ela pode vir a acontecer. Essa ação de avaliar no pós-pandemia traz, vale destacar, uma concepção de avaliação bem fatalista e utilitarista, contra a qual já há muito tempo a educação vem lutando.

E mais, enquanto sistema de ensino, pensar no pós-pandemia somente voltando-se para os conteúdos formais me parece igualmente um grande equívoco. Não estaremos voltando de um período de férias, felizes e saltitantes; estaremos voltando de um longo – e me parece cada vez mais longo – período de confinamento, onde muitos terão perdido entes queridos, onde todos terão experienciado limitações nas suas interações sociais e espaciais, reduzidas ao extremo nesse período.

O meu questionamento, nesse sentido, é simples: Como estaremos todos pensando na integralidade dos sujeitos que somos?

Por que, ao invés de pensar, no que teremos aprendido remotamente no que se refere aos conteúdos, não pensamos no que teremos aprendido como humanidade?

Preocupa-me um sistema de ensino não por atenção nessa questão que, para mim, soa como basilar no momento em que estamos vivendo. Preocupa-me, mas não me estranha, uma vez que é o mesmo sistema que não achou importante garantir uma segurança alimentar mínima para seus educandos.

Uma incipiente ação parece soprar, ainda muito de longe e diria que tardiamente… Mas, antes tarde do que nunca! É preciso ver o copo meio cheio, meio vazio, ainda mais nesses dias…

Em São Paulo, temos um núcleo chamado NAAPA em cada Diretoria de Ensino. O Núcleo de Apoio e Acompanhamento para Aprendizagem (NAAPA) é uma daquelas ideias bacanas que tem na rede e que acredito teria que ser ampliado exponencialmente. Criado em 2014 e com uma equipe reduzidíssima, composta normalmente por 4 pessoas, tendo sempre entre seus membros um psicólogo e um psicopedagogo minimamente, o NAAPA destina-se ao atendimento dos educandos que tiveram seus direitos violados e ou se encontram em situação de sofrimento, desencadeando prejuízos significativos no processo de desenvolvimento e aprendizagem. Enfim, um trabalho extremamente essencial, que merece ser mais conhecido, e que é feito a duras penas em muitos lugares, considerando a limitação numérica de pessoas. Mas, é aquele trabalho que quando dá certo, você analisa racionalmente e pensa: ‘não sei nem com foi possível’. As condições de trabalho são tão limites, como muitas vezes ocorre no serviço público, que não há como não se admirar com o empenho e dedicação dos envolvidos.

Em meio à pandemia, o NAAPA elaborou uma proposta para acolhimento virtual dos estudantes. Evidentemente, há toda a questão do acesso a ser discutida, tal e qual quando pensamos no ensino remoto, se vai alcançar uma efetividade e etc. Penso que, se possível fosse, um telefone 0800 ou uma opção do 156 talvez ampliasse mais esse acesso, mas já é algo no meio do deserto. É uma luz que se joga sobre a integralidade do aluno, aquele ser que, na etnologia da palavra, não tem luz. É uma proposta que pensa para além dos conteúdos formais, que pensa no ser humano que está por trás dos cadernos.

Para além de pensar na inteireza dos estudantes, que evidentemente é essencial em um sistema de ensino, precisamos pensar também nos educadores, naqueles que ensinam e que se mostram tantas vezes cuidadores cuidadosos, com o perdão da reiteração, frente a seus educandos. O que será feito para eles em plena pandemia?

Creio que esses também precisam de atenção e cuidado, mais do que nunca, aliás. Para educar e para cuidar bem, também precisamos ser cuidados e respeitados. Não somos máquinas. Não podemos ver os professores só em sua dimensão profissional nem nesse momento, nem em outros. O fazer docente implica um jogo de relações cotidianas, às vezes, extenuante, de inúmeras trocas de energias com os educandos todos os dias. É mais do que uma profissão de viés meramente acadêmico ou técnico, é essencialmente relacional. Não à toa, já há muitos anos, temos na categoria docente tantas licenças e afastamentos por conta da saúde mental. Precisamos falar sobre isso – e rápido.

Os professores foram convocados a se reinventar em um passe de mágica, muitos em condições adversas. Isso terá, certamente, reverberações em um futuro próximo. Aliás, já é dito por muitos especialistas, que todos que atravessam essa experiência terão que atentar para a questão da saúde mental. O que vem ocorrendo, o que viemos enfrentando, cada qual em seu contexto, não é pouco, não é leve. Como estaremos para receber os alunos? Como iremos receber os alunos? Ontem, me peguei imaginando que neste retorno aquela fatídica redação de ‘como foram suas férias’, que aqui seria alterada para ‘conte sobre sua quarentena’ nunca coube tanto. Precisaremos ter espaços nas salas de aula – e nas salas de professores – para falar, para escrever e para (re)elaborar tudo o que estamos vivenciando. Esses espaços-tempos não poderão ser breves como àqueles que destinávamos às redações, pois as experiências agora, certamente, foram muito mais profundas. Penso também que esses espaços-tempos terão que se anteceder a grita pelos conteúdos que já começa a pairar no ar. Somos humanos, demasiadamente humanos, antes de tudo e antes de nada, antes de qualquer conteúdo formal. A vida nos ensinou que é ela o mais precioso dos currículos nessas últimas semanas.

Nesse sentido, penso que, sistemicamente, poderíamos vir a ter, de maneira dialógica, uma proposta de oferta de formação continuada, prévia ao retorno de todos e todas para as escolas, com enfoque em tudo isso que estamos vivendo, em como estamos e em como vamos acolher os educandos na volta. Um percurso de formação, não extenuante evidentemente e nem impositivo, que é o que menos precisamos ultimamente! Uma formação que não tivesse como objetivo as questões logísticas deste retorno, algo que, infelizmente, parece ser já o maior foco de atenção de muitos administradores da educação. As questões logísticas, considerando os exemplos que estão chegando dos países que já estão tentando voltar à ‘normalidade’ me entristecem muito e, para mim, parecem longe de ser exequíveis nos nossos contextos educativos: rodízio dos pequenos, distanciamento dos educandos dentro das unidades rompendo a lógica das interações inatas de todo e qualquer espaço educativo, protocolos de higiene e limpeza rígidos…

Antes disso tudo vir a acontecer, teríamos, reitero, que pensar no humano da situação. Muitos professores e gestores já estão buscando sozinhos esses caminhos formativos tendo em vista a ansiedade e angústia que esse momento vem gerando. Penso que um sistema de ensino deveria, portanto, antes de qualquer coisa, se preocupar com a integralidade de todos os sujeitos que o compõem e se preparar para isso tudo que ainda virá. Creio que ao agir assim, um sistema de ensino se mostra responsável, comprometido e respeitoso frente aos seus principais atores e poupa também, racionalmente, muitos problemas no futuro. Como costuma-se dizer, investir em saúde e educação nunca é gasto e, no caso, mais do que nunca, precisamos investir na saúde mental dos nossos educandos e educadores para garantir a efetivação do direito pleno à educação de todos e todas quando do nosso retorno.

Por fim, talvez seja este o tal ponto de inflexão necessário que aludi anteriormente. Considerando os inúmeros afastamentos por questões de saúde mental nas mais diversas redes de ensino nos últimos anos, em que momento esta questão foi pauta de políticas das secretarias de educação? A questão da saúde vocal aparece aqui e ali depois de muito esforço, mas e a saúde mental de todos e todas? E as questões de saúde mental dos nossos educandos, será que elas vêm merecendo a devida atenção por parte das secretarias de educação? Alguém ouve falar de políticas públicas intersecretariais efetivas preocupadas com esta questão? E, sabe, quem está, todos os dias, no chão da escola, vê o quanto é importante e necessária essa discussão. O quanto tudo isso é essencial para o bom desenvolvimento das relações humanas dentro das escolas e, ‘tcharam!’, o quanto isso ajudaria – e muito – no processo de ensino-aprendizagem dos tais dos conteúdos que são cobrados nas tais avaliações externas… Precisamos falar sobre isso. Hoje, ainda mais que ontem, para que se não morrermos do vírus, não adoeçamos pelo contexto vivido.

Um comentário sobre “O Cuidar Como Dimensão Curricular Para Todos: Quem Cuida de Quem Cuida e Educa?

  1. Grandes reflexões, o texto trás.
    Trás questões fundamentais que persistem há muito tempo na educação, mas que urgem lembra-las o tempo todo, todo o tempo. Com ou sem pandemia.
    É como se fosse uma utopia, que serve como um rastro a seguir, a alcançar.
    Na educação é assim: sonhar é preciso.
    Parabéns, Eliana

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