O Fetichismo da Mercadoria em Tempos de Pandemia: flexibilização X vidas

por Caio Uehbe

Os últimos acontecimentos em torno da crise gerada pela pandemia de Covid-19 beiram o absurdo devido à falta de coerência dos que nos governam. Difícil expressar em palavras o momento que vivemos… talvez insanidade, tendo em vista que temos pessoas que acreditam que a terra é plana no centro do poder no Brasil, mas, infelizmente, veremos que no fundo tudo não passa do mais baixo oportunismo político. O período é difícil porque tem sido, sobretudo, um exercício para pessoas que ainda cultivam o mínimo de humanidade dentro de si, manter as esperanças e ter forças para resistir a tudo o que vem acontecendo. Parte desse exercício de resistir e suportar o que vem acontecendo se transforma em ideias, suposições, hipóteses, etc. Este texto, em especial, surge em um desses momentos.

Fomos, no Estado de São Paulo, pegos de surpresa pelo anúncio do governador João Dória de um plano de retomada das atividades econômicas. Não que fosse esperado algo razoável vindo de uma pessoa que representa quase tudo que deve ser repudiado em um ser humano, mas que apesar de ser quem ele é, vinha tomando medidas razoáveis no combate à pandemia, entrando até em confronto com o seu cabo eleitoral, o Bolsonazi. Por mais que o governador agora tente se desvincular do presidente, jamais esqueceremos de sua campanha de forte cunho nazifascista com o jargão BolsoDória.

Na semana anterior ao anúncio da flexibilização da “quarentena”, que efetivamente, convenhamos, nunca existiu, tivemos a antecipação de feriados, visando aumentar o isolamento social, tendo em vista o iminente colapso do sistema de saúde. O próprio governador do Estado e sua equipe falaram que se a situação não se revertesse e o isolamento não aumentasse seria necessário um lockdown, que o plano já estava até elaborado, caso fosse necessário. Mas o que veio, ao invés disso, foi a flexibilização.

Refletindo sobre os motivos que tem levado o Brasil e grande parte do mundo a terem tantas dificuldades em combater a pandemia, ou de ao menos terem clareza de quais devem ser as prioridades nesse combate, me veio o estalo de como o “Fetichismo da Mercadoria”, apontado por Karl Marx em sua obra “O Capital”, é, na realidade, o grande responsável por essas dificuldades.

Falar em “Fetichismo da Mercadoria” é falar de alienação e de um tipo de alienação específica gerada pelo sistema capitalista. Para quem quiser se aprofundar no conceito de alienação em Marx, recomendo a leitura de “A Ideologia Alemã”. Podemos de forma grosseira definir a alienação como sendo a defasagem entre o modo que as coisas são e a forma como as interpretamos.

No capitalismo a mercadoria se torna a grande responsável por essa deformação no jeito de enxergarmos a sociedade e suas relações, sendo o ponto mais grave dessa deformação, o controle que a mercadoria passa a ter sobre nossas vidas.

Para entendermos um pouco melhor esse processo e chegarmos na relação do “Fetichismo da Mercadoria” com as dificuldades na definição das prioridades em relação ao combate do Corona Vírus, é importante, minimamente, entendermos o que é essa forma mercadoria. A mercadoria, segundo Marx, faz com que a alienação no sistema capitalista tenha uma determinação objetiva e ao mesmo tempo abstrata, ou como ele chama, “fantasmagórica”.

O comércio no decorrer da história estabeleceu uma mercadoria como equivalente geral de todas as outras, assim o valor das mercadorias passou a ser expresso na forma dinheiro. A forma dinheiro nada mais é que a representação dessa mercadoria equivalente geral, que já foi o ouro, por exemplo, até evoluirmos ao papel moeda. No final, esse equivalente geral, ou seja, o dinheiro, gera uma situação na qual ele acaba se tornando o meio e o fim da produção das mercadorias. Deste modo, o que será produzido passa a não ser mais feito pela subjetividade do produtor, ou seja, as pessoas não produzem mais de acordo com as suas vontades e necessidades, sendo a produção definida pelo valor que a mercadoria produzida tem no mercado. Essa constatação pode parecer algo normal, natural, mas na verdade é algo muito mais grave e complexo. Devido a esse processo, passamos a viver em uma sociedade e em um sistema econômico, no qual as mercadorias controlam os indivíduos. No capitalismo, as pessoas agem segundo regras determinadas que fogem ao seu controle, justamente pelo fato de não perceberem que são as relações sociais de trabalho que produzem as mercadorias, como se as mercadorias existissem por si próprias e tivessem uma vida própria. Esse fenômeno é denominado “Fetichismo da Mercadoria”.

Nesse processo, a própria força de trabalho se torna uma mercadoria, alugada mensalmente pelos patrões na forma de salário. Ao tornar a força de trabalho uma mercadoria, através do trabalho assalariado, as relações sociais e econômicas passam também a serem relações mercantis, relações de troca, fazendo com que cada pessoa, enquanto mercadoria força de trabalho, também passe a ter um valor diferente.

Quando analisamos mais a fundo as atuais medidas de flexibilização propostas no momento em que temos mais de mil mortes diárias pelo Covid-19 no Brasil e aproximadamente 90% dos leitos de UTI ocupados na cidade e no Estado de São Paulo, fica bem claro que está sendo feito um cálculo pautado nos valores das mercadorias. As mercadorias que serão perdidas nesse processo serão as consideradas de menor valor. E quais seriam essas mercadorias? Os trabalhadores da periferia, superexplorados, com seus salários de fome, pois como já diz a música eternizada na voz de Elza Soares “A carne mais barata do mercado é a carne negra”. Serão eles os mais atingidos e provavelmente os que morrerão na porta de um hospital devido à ausência de leitos. Tudo isso com o intuito de preservar as mercadorias de “maior valor” segundo a lógica de nossa sociedade, que são os CNPJs e os interesses das empresas que vem tendo “prejuízos” com os estabelecimentos comerciais fechados. Quem não ouviu por mais de uma vez a falácia de que “nessa pandemia teremos mais mortes de CNPJs do que de CPFs”? Uma comparação totalmente descabida, mas que corrobora com o que já foi explanado anteriormente, o fato de que as vidas são meras mercadorias nessa sociedade, fazendo com que essa comparação tenha sentido para quem a faz. Desde o início da crise, essa tem sido a postura tomada pelo governo federal, a qual agora se soma o governo do Estado de São Paulo.

A dificuldade em se estabelecer de fato as prioridades no combate à pandemia está diretamente ligada ao “Fetichismo da Mercadoria”, pois ele torna as mercadorias, que nos controlam, mais importantes do que as vidas humanas, que são vistas como mercadorias de menor valor, nesse sistema perverso e desumano que vivemos.

Em uma sociedade pautada em valores humanitários não haveria a menor dúvida em colocar as vidas humanas como prioridade, mas esses valores não são e jamais serão os valores no qual se pautará o sistema capitalista, justamente porque adotar esses valores significaria abrir mão de ser capitalista.

O capitalismo tem como princípio a expansão do capital que ocorre através do lucro obtido, sobretudo, por meio da exploração da força de trabalho que, quanto mais precarizada e superexplorada, mais contribui para o aumento do lucro e para a consequente expansão do capital.

A expansão do capital precisa ocorrer de forma incessante devido à livre concorrência, que gera a competitividade, outro pilar do sistema capitalista. A competitividade exige o reinvestimento incessante nos meios de produção do lucro obtido pelo próprio capitalista para que assim ele se torne mais competitivo, produzindo mercadorias de melhor qualidade, com menores custos e até mesmo inventando novos produtos, fazendo com que ele obtenha uma vantagem comercial em relação à concorrência, a “derrotando”.

Um sistema que visa o lucro, obtido através da exploração do trabalho, buscando derrotar o concorrente, jamais conseguirá conciliar valores humanitários. Tudo o que vemos no Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, no quadro “Solidariedade S.A.”, não passa de uma maquiagem para continuarmos sendo explorados e enganados, acreditando que os grandes responsáveis pela crise social em que vivemos, que apenas se escancarou com a pandemia, mas que sempre esteve aí, estão de fato interessados em combatê-la.

Infelizmente, nem a perda de pessoas próximas tem sido capaz de fazer com a que a sociedade perceba o quão destrutivo e perverso é o sistema econômico em que vivemos. Ainda continuam fetichizadas, acreditando que no final do arco-íris do sistema capitalista há um pote de ouro para elas, basta a economia funcionar e elas trabalharem, que essa recompensa será alcançada. “O trabalho liberta”, slogan nazista presente na entrada do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, e que vem sendo utilizado pelo (des)governo federal para incentivar que as pessoas voltem ao trabalho em meio à pandemia é uma boa representação para a situação que estamos vivendo. Será que os judeus em Auschwitz foram recompensados com o “pote de ouro” no fim do arco-íris com o trabalho realizado? Infelizmente um “pote de ouro” muito parecido com o que eles receberam, nos espera.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s