O Direito à discordância e não à ignorância: as mãos sujas de sangue

por Caio Uehbe

Quando eu era adolescente, no tempo da escola, sempre me perguntava nas aulas de história sobre o nazismo “como as pessoas permitiram que isso acontecesse?”, “será que elas não sabiam o que estava acontecendo?”. Tais perguntas eram, por certo, perguntas retóricas, dada a impossibilidade de viver aquele momento histórico para obtê-las. Não que não existam estudos que tentem explicar tais questionamentos, mas, ainda assim, não conseguiam me convencer de como tais atrocidades aconteceram com a conivência da maioria das pessoas.

Infelizmente, a vida está nos dando a possibilidade de ter tais questionamentos respondidos. O momento que vivemos no país com o governo neonazista de Bolsonaro tem semelhanças estarrecedoras com aquele momento da história. Mas não seria muito pesado usar esse termo para se referir ao que está acontecendo? Não! O governo é sim neonazista, o Brasil ainda não é um país nazifascista, assim como a Alemanha não se tornou automaticamente após a ascensão de Hitler como primeiro ministro, mas as ações do governo nitidamente apontam para um caminho muito semelhante.

Um professor muito querido na Faculdade de Educação da USP sempre dizia “todos têm o direito à discordância, mas não à ignorância”. Essa frase sempre me fez muito sentido e ganhou, para mim, um sentido ainda maior nas últimas eleições presidenciais. Ninguém tem o direito à ignorância quando a sua suposta ignorância pode significar um genocídio como o que estamos vivendo no Brasil ou quando a sua ignorância terá como consequência a ascensão de um neonazista ao poder. Mas há aqueles que dizem: “Como as pessoas iriam saber que ele seria assim?”. Responderei essa pergunta através de ume breve seleção de discursos, falas e entrevistas feitas por Jair Bolsonaro antes de ser eleito presidente.

Transcrição textos vídeo

Bolsonaro: “Maioria é uma coisa, minoria é outra. Minoria tem que se calar, se curvar à maioria e acabou!”

“É pra se respeitar homossexual. Que respeitar homossexual?! Eles é que têm que nos respeitar! É o contrário! Na política é o contrário”.

“Merecia isso, pau de arara. Funciona. Eu sou favorável à tortura, vocês sabem disso. E o povo é favorável disso também”.

“Eu não empregaria com o mesmo salário. Ah, mas tem muita mulher que é competente…”

“Não há a menor dúvida! Daria golpe no mesmo dia! No mesmo dia! Não funciona [democracia]. Só vota o que o presidente quer! Se ele é a pessoa que decide, que manda, que tripudia em cima do congresso…  Dá logo um golpe, pô! Parte logo pra ditadura!”.

“Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vou botar esses picaretas pra correr do Acre!”.

“Olha, eu fui em um quilombola [quilombo] em Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Eu acho que nem para procriador serve mais. Mais de um bilhão de reais por ano gastado com eles”.

Hitler: “A luta conta o marxismo se levantou então, pela primeira vez, como objetivo no momento em que assumi um compromisso, sendo um completo desconhecido ao iniciar esta guerra e não descansar até que este fenômeno foi, finalmente, suprimido da vida alemã”.

Bolsonaro: “Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. As ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou a cidade”.

“Quer ver uma coisa que eu falo também. Não é porque eu sou deputado, não. Discute-se também agora a questão da adoção de crianças. Vocês acham que eu vou deixar um filho meu de cinco anos de idade, brincar com uma criança de cinco anos adotada por um casal homossexual? Não vou deixar!”.

“Se anda com gente que não estuda, que diz que vai pra escola e vai pra gazeta, não vai aprender nada. E se anda com um homossexual, vai acabar virando um, vai e acabou. Se o elemento quer a sexualidade dele, [que] se mantenha no teu nível, na sua intimidade, como todos aqui fazem quando estão namorando, numa intimidade e não em público”.

“Graças a deus, não tenho filho igual vocês. Igual esse pessoal que está aí fora [homossexuais que protestavam]. Tá ok? Seria uma vergonha”.  

“Vi um cartaz agora pouco, “morrem três homossexuais por dia”, péra, quantos héteros morrem?”.

 “Eu não brigo com homossexual, porque ele pode se apaixonar”.

“Essa política barata de direitos humanos, [de] não à violência. Ensina isso para vagabundo lá no morro, porra!”.

Professor da faculdade: “Deputado, eu queria fazer uma pergunta para você, olhando nos olhos com a lealdade que sempre tive. Primeiro, quem tem medo da comissão da verdade? Segundo, quando é que eu vou poder perguntar para quem me torturou, porque me torturou?”.

Bolsonaro: “Eu respondo, eu respondo. O que que tu fez pra ser torturado? Se é que foi torturado. Graças a deus, vocês foram execrados do nosso país”.

Jornalista: “Sabendo da história da 2ª Guerra Mundial, você teria se alistado, se fosse alemão, no exército nazista?”

Bolsonaro: “Olha, meu bisavô foi soldado de Hitler. Ele perdeu um braço, inclusive, na guerra.

Jornalista: “Seu bisavô?”.

Bolsonaro: “Qual o problema? Minha família são de alemães e italianos”.

Preta Gil: “Deputado Jair, se seu filho se apaixonasse por uma negra, o que você faria?”.

Bolsonaro: “Ó Preta, eu não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Eu não corro esse risco e meus filhos foram muito bem-educados. E não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu”.

Bolsonaro: “Nesse dia de glória para o povo brasileiro, tem um nome que entrará para a história nesta data pela forma como conduziu os trabalhos nesta casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha. Perderam em 64. Perderam, agora, em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula que o PT nunca teve. Contra o comunismo, pela nossa liberdade. Contra o Foro de São Paulo. Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra, o pavor de Dilma Roussef. Pelo exército de Caxias. Pelas nossas forças armadas. Por um Brasil acima de tudo e por deus acima de todos. O meu voto é sim”.

Desculpe por fazer o leitor ter que entrar em contato com tais declarações. Confesso que tive que fazer em etapas a transcrição devido ao estado de indignação, revolta e raiva que elas me despertaram.

Muito tem se discutido como será o Mundo pós-quarentena. Acredito que no caso brasileiro essa resposta se torna muito mais complexa do que no resto do Mundo. Não somente pelo fato de que teremos, certamente, o maior número de vidas perdidas, mas sim, porque quem também corre sério risco de morrer ao final de todo esse processo é a nossa frágil democracia. Democracia que vem sendo dilacerada desde 2016 com o processo de impeachment da Presidenta Dilma Roussef, que eu particularmente prefiro chamar de golpe. Democracia que desde então sangra agonizante até que não lhe corra mais a vida pelas veias. Enquanto isso, os abutres de tempos passados, que já preferiram se autodenominar Condores[1], pairam, sorrateiros e oportunistas, aguardando para se alimentarem da carne morta, em um banquete de vidas inocentes, repetindo as atrocidades de períodos anteriores da história do Brasil.

A questão que eu gostaria de refletir com vocês, caros leitores, é como chegamos tão no fundo do poço, ao ponto de ter essa pessoa como presidente da república? Não podemos deixar de enfatizar que todas essas declarações presentes no vídeo e transcritas neste texto foram feitas antes de Bolsonaro ser eleito, grande parte delas em programas de TV ou em pronunciamentos públicos, e, apesar de tudo isso, ele foi eleito presidente. Eleito com o voto de pessoas próximas a nós. Pessoas que sabiam sim quem era Jair Bolsonaro e, muitas delas, agora se fazem de enganadas e há também aquelas que usam como justificativa a própria ignorância, ou ainda o denominado “antipetismo”, que cada vez mais se mostra ser “anti-humanidade”. Não importa a justificativa que usem, não deixam de ser cúmplices e de ter suas mãos sujas de sangue.

Acredito que a questão mais dura que já enfrentávamos no âmbito emocional antes mesmo da pandemia era conseguirmos de algum modo abstrair tudo que aconteceu, sabendo que conhecidos, familiares, pessoas muito próximas, votaram pelo extermínio e tortura de pessoas de esquerda, pobres, negros, indígenas, homossexuais, não cristãos e qualquer tipo de minoria. Votaram mesmo sabendo que eu e provavelmente a maioria dos que leem esse texto, fazíamos parte deste grupo alvo. Entretanto, agora tudo isso se torna ainda mais grave, porque abertamente o governo se mostra golpista e a favor da implementação de uma ditadura. Alguns “arrependidos”, “isentões” ou apolíticos, diante de tudo isso, falam “não discuto política porque isso tem dividido o país e separado famílias”, ou até mesmo o clichê “políticos é tudo igual, nenhum presta”. Infelizmente, a questão é muito mais complexa e profunda! As pessoas que votaram e elegeram Bolsonaro, e até mesmo que se abstiveram votando nulo, mesmo que na ignorância ou no antipetismo, são pessoas que, de certa forma, concordam com o que ele representa e disse, e que hoje, mesmo que algumas se mostrem “arrependidas”, suas mãos sempre estarão sujas com o sangue de todos que morrem e morrerão devido às ações desse (des)governo. A nós, que temos sofrido com as constantes ameaças a nossa existência, caberá avaliar a possibilidade de perdoar, conviver, relevar as pessoas próximas cúmplices de tudo que acontece, mas jamais se sentindo mal se a decisão for excluir definitivamente algumas dessas pessoas de nossas vida, mesmo se forem parentes… Não dizem que pai e mãe é quem cria? Família também deveria seguir um critério semelhante para além de laços consanguíneos. Quanto aos colegas e amigos, somos nós que, de fato, escolheremos quem estará ao nosso lado nas trincheiras que virão.


[1] Referência a “Operação Condor”

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