Globalização, Consumismo e Tecnologias: impactos na educação contemporânea

por Caio Uehbe e Eliana Scaravelli

A revolução técnico científica informacional da segunda metade do século XX construiu as bases materiais e imateriais necessárias para a consolidação do processo de globalização efetivado na última década do século passado.

Esse processo efetivou-se conjuntamente com mudanças políticas radicais no centro do sistema capitalista que, concomitantemente às mudanças estruturais propiciadas pela revolução técnica citada, substituía o modelo de estado keynesiano do bem-estar social pelo atual modelo neoliberal.

É visível e notório que ambos modelos por se constituírem sobre o modo de produção capitalista reproduzem de forma ampliada a exploração capital trabalho, geradora das desigualdades sociais existentes em praticamente todos os cantos do mundo, porém o modelo neoliberal contemporâneo é marcado por uma radicalização do processo de reprodução capitalista, por meio da revogação de direitos básicos conquistados historicamente através de lutas populares das classes trabalhadoras, tanto no centro como na periferia do sistema capitalista, assim como de uma mudança do papel do estado que deixa de garantir os direitos básicos dos cidadãos, atuando tão somente de acordo com os interesses acumulativos do grande capital. Esse processo se materializa através das privatizações, corte de gastos com a seguridade social, flexibilização de leis trabalhistas, revisão do sistema previdenciário, assim como da ausência de investimentos em políticas de combate à pobreza e ausência de subsídios as populações em vulnerabilidade social. Essas medidas se justificam através de um discurso meritocrático e de uma concepção vigente entre os ideólogos neoliberais da inexorabilidade da pobreza, que dessa forma seria inevitável e sempre presente, não valendo a pena “desperdiçar” recursos combatendo-a.

Desde o seu surgimento, no século XVIII, o sistema capitalista tende a transformar todas as relações sociais em relações de trocas de mercadorias, seja através da comercialização de produtos de modo a suprir as necessidades básicas das pessoas ou através da “venda” e “compra” da força de trabalho entre empregados e patrões.

Acontece que com a ampliação global do processo de reprodução dessa sociedade produtora de mercadorias, hoje poucas ou praticamente nenhuma relação social foge dessa lógica da troca. Isto causa um sério impacto na constituição das identidades juvenis gerando conflitos cada vez mais frequentes nos diversos âmbitos do seu cotidiano (família, escola, amigos), tornando os jovens a cada dia seres mais individualistas e menos fraternos com os demais, encontrando no consumo o único meio de satisfação de suas angústias e vazios, sendo visto este como a única forma de alcance da felicidade e, sobretudo, sendo o consumo o regulador das relações sociais, onde tudo vira uma moeda de troca, a famosa fase “o que eu ganho com isso?” ou “filho, se você se comportar a mamãe te compra aquele brinquedo”.

O consumismo é a peça fundamental para a efetivação e reprodução dessa engrenagem, tendo em vista que o capitalismo é pautado sobre uma lógica concorrencial, onde cada produtor deve superar o outro para que seu produto tenha maior percentual de vendas. Como aparece na estrofe da música “Pressão Social” da banda brasiliense Plebe Rude “Há uma espada sobre a minha cabeça, é uma pressão social que não quer que eu me esqueça, que a minha vitória é a derrota dele, e o meu lucro é a perda dele, que eu tenho que competir, tenho que destruir”. Para isso ocorrer, ou seja, para o capital se reproduzir, é necessário o sucessivo reinvestimento do lucro obtido, através da produção e venda de mercadorias, novamente na produção, em outras palavras, as mercadorias são produzidas visando não mais a satisfação das necessidades das pessoas e sim a consolidação do lucro a ser reinvestido na produção.

Esse processo acontece através do consumo diário e compulsivo das pessoas, desse modo diariamente novos produtos são inventados e colocados no mercado e através da mídia oferecidos a grande massa gerando cotidianamente novas necessidades de consumo, vendendo a ideia de que ao consumir esses produtos você adquire um certo status social. É o “sonho médio”, tão bem descrito na canção da banda capixaba Dead Fish, presente em nosso cotidiano escolar através dos valores familiares transmitidos pelos pais das classes abastadas e também transmitidos pela forte pressão midiática sobre os jovens de todas as classes sociais: “Não importa se meus filhos não terão educação, eles têm que ter dinheiro e visual”. Além disso, essa mentalidade consumista como forma de vida é reforçada pela teologia da prosperidade em voga em diversas religiões neopentecostais e que assola cada vez mais os bolsões periféricos do nosso país. Essa volatilidade dos bens materiais, assim como das relações impacta fortemente nas identidades constituídas, sendo um dos grandes responsáveis pelo processo de desumanização das relações cotidianas.

À primeira vista esse processo parece inevitável e a humanidade estaria fadada a um fracasso e a um contrassenso do próprio significado do termo humanidade. Entretanto, acreditamos que na base material e imaterial do modelo de desenvolvimento atual há o caminho para uma mudança necessária e possível, onde a escola pode desenvolver um papel importante nessa reversão, que se configuraria como uma “revanche” da humanidade frente a tecnicidade, entendida essa como sendo o uso da técnica científica nas relações de produção transcendendo para as relações sociais como uma forma de possibilitar a expansão da reprodução ampliada do capital em detrimento das reais necessidades humanas.

O professor Milton Santos divide o processo atual de globalização em três mundos: o mundo como nos fazem ver –  a globalização como fábula -, o mundo como ele realmente é – a globalização como perversidade – e, o mundo como ele pode ser – uma outra globalização. Essa esperança presente no mundo como ele pode ser, se deve a constatação de que o mundo nunca teve, como nos tempos atuais, as condições técnicas necessárias para a construção de um mundo da dignidade humana, da fraternidade, do amor e respeito ao próximo, só que essas condições foram expropriadas e colocadas a serviço de um punhado de empresas globais que preferiram construir um mundo perverso, desigual e do estranhamento ao próximo.

Muitas dessas condições técnicas estão presentes no cotidiano de nossos educandos através de computadores pessoais modernos, celulares de última geração, internet, instrumentos que aparecem também no dia-a-dia da escola e da sala de aula, porém que muitas vezes passam despercebidos, servindo tão somente como reprodutores dessa lógica indesejável.

De que forma a escola pode contribuir para o uso dessas tecnologias além dos jogos e redes sociais que a cada dia mais prendem a nossa juventude em uma alienante e egocêntrica lógica da aparência? Lógica que vende a ideia de libertadora, democrática e global, mas que na verdade é disponibilizada com o único intuito de ampliar a abrangência dos serviços modernos de venda virtual, mapeando o perfil de consumidores de todas as idades.

Será que a disponibilidade de acesso à rede global de computadores através da internet amplia o conhecimento que o jovem tem do mundo, ou o prende a cada dia mais em seu próprio círculo de interesse e em vivências distantes e desumanizantes?

As generalizações são sempre muito ruins e perigosas. Acreditamos que o potencial de criação da nossa juventude na figura dos nossos educandos aparece em diversos momentos da nossa prática escolar, mas muitas vezes é ofuscada pela engrenagem enrijecida de funcionamento da escola. Muitas vezes, os estudantes não têm a dimensão do poder que eles têm em mãos com essas tecnologias. Gerações anteriores com muito menos foram capazes de transformações culturais e comportamentais importantíssimas.

A incorporação no currículo e prática escolar de atividades e conteúdos que sensibilizem os estudantes para as mazelas contemporâneas como o machismo, homofobia, racismo, pobreza, exploração do trabalho, violência, degradação ambiental, etc, através de uma aprendizagem significativa conjuntamente com uma potencialização da utilização das técnicas informacionais disponíveis a eles, possibilitará a esses jovens uma nova forma de utilização dessas tecnologias, uma forma que seja transformadora e crítica, geradora de novos valores e ações além da lógica da competição, do cada um por si, do ter ao invés do ser, contribuindo para a denúncia de situações cotidianas de opressão, ainda fortemente presentes em nossa sociedade, assim como de mobilização para a transformação necessária, seja através de petições on line, da divulgação nas redes de conteúdos para além de interesses pessoais, da organização estudantil em grêmios ou até mesmo através da organização de atos públicos, haja visto o grande exemplo dos estudantes da rede pública do Estado de São Paulo que, em 2015, ocuparam as unidades escolares a fim de evitar o fechamento de muitas delas. Mais recentemente, temos também o exemplo da organização virtual dos estudantes lutando pelo adiamento da edição 2020 do ENEM.

Esses exemplos demonstram que a juventude pode fazer um bom uso das tecnologias, combatendo o pensamento único difundido pela mídia de massa e legitimada por uma ciência que, a cada dia mais a serviço do grande capital, é posta como a “verdade”.

Apesar desta fetichização a respeito das tecnologias, que como vimos podem ser importantes em alguma medida na organização de lutas sociais contemporâneas, é preciso refletir, no atual momento da pandemia do coronavírus, o quanto o acesso à tecnologia, ou melhor a falta dele, escancara as desigualdades sociais existentes entre os educandos do nosso país.

A solução das tecnologias educacionais compradas a toque de caixa por várias redes públicas de ensino em um processo irrefletido de imitação barata das redes particulares demonstrou ser uma panaceia amarga para todos os sujeitos implicados neste processo. Há um esforço imenso na tentativa de mostrar os ‘bons resultados’ do ensino remoto promovido por ferramentas tecnológicas, afinal, como uma solução desenvolvida pelo Google poderia dar errado, não é mesmo? Mas, os resultados são ínfimos, pois a grande maioria dos nossos estudantes não têm acesso à internet para fazer uso dessas ferramentas. Ou seja, desnudamos, com a pandemia que, além da desigualdade de acesso à luz, à moradia, à água, à educação, também há um acesso desigual ao conhecimento.

E se o acesso às tecnologias vem dando errado, se estamos diante de um grande apagão na educação pública, o que vem dando certo? Certamente, o que vem crescendo são os vínculos, as redes entre os sujeitos da educação – gestores, professores e comunidade – quase sempre mediados por aplicativos e redes sociais que originalmente não tem a educação como objeto e que, vale dizer, não ‘custam’ mais aos usuários. Além disso, o bom e velho telefonema vem sendo utilizado, em muitas escolas, para se aproximarem das famílias. A educação vem sendo feita para os meios populares para fora das plataformas educacionais que se mostram ‘caras’ por consumirem dados dos planos de celular já tão ‘estreitos’.

A pandemia vem nos gritar o pensamento de Paulo Freire na cara: a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Muitos gestores de sistemas de ensino parecem não ter feito essa lição de casa, mas os professores, conhecedores dos contextos em que lecionam, vem dando mostras de que, agora, em tempos pandêmicos, educar é, cada vez mais, falar da vida, dos contextos nos quais nossos educandos vivem, que a cultura social é currículo.

As redes que acreditaram na autoria de seus sujeitos professores e na escola como agentes promotores de política pública – e não somente como meros reprodutores – parecem estar, pelos debates que estamos acompanhando, acertando mais. Também acertam mais aqueles que subvertem os limites destas plataformas frias que não aproximam os sujeitos em tempos de distanciamento social. Plataformas que materializam tão somente uma educação bancária, de transferência de conteúdos.

Enquanto os defensores da educação à distância dão pulos de alegria e festejam dizendo que a pandemia se mostra como um grande laboratório deste modelo educacional com resultados positivos, pensamos, em oposição, pelos exemplos concretos que vivenciamos e observamos, que a pandemia mostra, na verdade, que a educação à distância é limitada e jamais poderá substituir a educação que conhecemos em sua integralidade. A tecnologia poderá continuar sendo apoio, mas jamais substituta. Há algo da educação que é do humano, apenas. Telas de celulares e computadores, aplicativos, etc. não substituem a relação tête-à-tête,  não substituem o componente de socialização que todo processo educativo coloca. Não há aprendizagem solitária. As relações de ensino-aprendizagem pressupõem dois sujeitos, em contexto e, mais, pressupõe a profissionalidade de quem ensina, que não pode ser substituída pelas famílias.

Por fim, é preciso pontuar que as ações dos grandes grupos de soluções tecnológicas educacionais não nos parece ser nem um pouco desinteressadas. Na rede municipal de São Paulo, por exemplo, inicialmente, a Google For Education fez um acordo de “doação dos serviços de implantação da plataforma de ferramentas do G Suite for Education (conjunto de soluções do Google for Education), e de formação da equipe de gestores da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, para uso gratuito de 100% da Rede Municipal de Educação de São Paulo[…] com vistas a fomentar e dar suporte a modernização dos atuais processos de ensino e aprendizagem, comunicação e produção de conteúdo didáticos”. (Diário Oficial da Cidade de São Paulo, pág. 69, 16 de abril de 2020)

Entretanto, como diria o célebre ditado popular “não existe almoço grátis”… A empresa boazinha que ‘doa’ sua capacidade tecnológica consegue, dessa maneira,  acesso a toda a base de dados de uma rede com mais de 1 milhão de alunos e com mais de 80.000 professores. É essa mesma empresa também que é contratada, em 20 de junho de 2020,  com dispensa de licitação, pelo período de seis meses para “prestação de serviços compreendendo a disponibilização, implantação técnica, treinamento presencial, suporte remoto e manutenção de solução tecnológica para comunicação, no modelo de Software como Serviço (SaaS), […] objetivando a gestão de informações entre a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SME) e os pais ou responsáveis dos alunos da Rede Municipal de Ensino, durante o período de enfrentamento dos efeitos da situação de emergência de saúde pública – VALOR MENSAL DO CONTRATO: R$ 31.350,00”. Mas, o que são R$ 30.000,00 mensais para uma prefeitura como a de São Paulo, não é mesmo? Esse pode ser o início de outras ‘trilhas de aprendizagem’[1], um tanto quanto ‘estranhas’ para não dizer escusas, dentro dos sistemas de ensino, onde as tecnologias e interesses privados vem se emaranhando cada vez mais em uma gestão verticalizada de educação e onde a mistura de interesses públicos e privados, infelizmente, vem se sobrepujando em detrimento da compreensão da educação como uma das ferramentas principais na luta contra as desigualdades sociais.

Nunca foi tão importante entender o significado do oferecimento de uma educação com qualidade social georreferenciada para nossos estudantes e, por dentro deste debate, atualmente, a questão do acesso e do uso das tecnologias ganha destaque, merecendo ser visto e revisto, a fim de evitar que a tecnologia se sobreponha ao humano sob a justificativa de uma “eficiência”, que se mostra falsa e falha por não estar efetivamente preocupada com a teleologia da educação, com a real efetivação do processo de ensino e aprendizagem sob um ótica emancipadora, mas sim preocupada com a obtenção do lucro mascarado de política pública, desenvolvimento tecnológico e modernidade.


[1] Trilhas de Aprendizagem é o nome da coleção didática de materiais impressos distribuídos pela Secretaria Municipal de Educação de São Paulo aos educandos durante a pandemia do COVID-19. Este material foi elaborado sem consulta aos educadores da cidade e , em que pese os vultuosos gastos para a sua distribuição (cerca de 4,7 milhões de reais), há inúmeros relatos em todas as regiões da cidade a respeito da não entrega deste material.

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