A escola pública e o direito à cidade: a educação enquanto prática da liberdade

por Lais Uehbe

“O utópico não é o irrealizável; a utopia não é o idealismo, é a dialetização dos atos de denunciar e anunciar, o ato de denunciar a estrutura desumanizante e de anunciar a estrutura humanizante. Por esta razão a utopia é também um compromisso histórico”
Paulo Freire

A cidade é uma sala de aula. A sala de aula é, em sua essência, movimento, pede movimento, movimento de palavras, movimento de ideias, movimento humano. A cidade é movimento, movimento de pessoas, movimento espacial, movimento temporal, movimento social. A vida é movimento e, no entanto, condicionamos nossos alunos, nossos jovens, a permanecerem inertes no espaço. Enquanto escola – enquanto movimento que transforma, que educa e que liberta – utilizar os espaços públicos como ambiente de aprendizagem deveria ser, antes de tudo, um direito. Um direito inalienável aos nossos estudantes.

Falo isso, sobretudo, por uma grande experiência que tive ano passado, ao levar os meus alunos de uma escola municipal aqui de São Paulo até a Av. Paulista para visitarmos o MASP. A proposta pedagógica apresentada era a dos “estudos de meio”, que são uma atividade didática que permite que os alunos estabeleçam relações ativas e interpretativas, relacionadas diretamente com a produção de novos conhecimentos em contextos vivos e dinâmicas da realidade. É uma prática extremamente rica, pois permite aos estudantes, que estão começando a ler o mundo humano, conhecer a diversidade de ambientes, habitações, modos de vida, estilos de arte, entre tantas outras coisas, compreenderem de modo mais crítico a sua própria época, a sua própria vida, ampliando, assim, a sua visão e compreensão do mundo.

Entretanto, essa prática pedagógica esbarra, no contexto da escola pública, no problema da falta de verba e recursos para a execução desse tipo de atividade. A verdade é que ser professor de escola pública exige de nós, parafraseando o grande Guimarães Rosa, um bocado de coragem. É preciso coragem para sairmos dos lugares comuns e ultrapassarmos os limites que a realidade nos impõe. E é incrível quando conseguimos.

Partindo disto, organizamos nossa saída através da utilização do transporte público oferecido pela cidade. Quer criticidade e experiência melhor do que essa?  Assim, lá fomos nós, ônibus e metrô, cerca de 30 pré-adolescentes por saída (fizemos 5 no total!), que, em sua maioria, nunca haviam ido até a avenida Paulista, nem andado de metrô. Alguns, nem saído do Jardim Maristela, o bairro que se localiza a escola. Essa experiência gerou em mim várias reflexões, às quais compartilho parte delas com vocês.

A operação de sistemas discriminatórios econômicos, sociais, de gênero, raciais e espaciais produz diferenças significativas de status cultural e status material entre os diversos grupos humanos. Nossos alunos estão cotidianamente sujeitos a esses sistemas, e educadores que somos, educadores de escola pública ainda por cima, não podemos fugir do compromisso político e social de não reforçarmos, dentro do espaço e cotidiano escolar, essa discriminação.

É nosso compromisso social romper, através de nossas práticas pedagógicas e atuação dentro e fora da sala de aula, com essas diferenças produzidas intencionalmente pelo aparato social e governamental, que busca sempre a manutenção de seu status quo e, portanto, a segregação e o silenciamento da grande maioria da população do nosso país.

Além disso, nos deparamos com outra realidade perversa a qual nossos alunos estão sujeitos: aquela presente no mito da meritocracia e já enraizada no imaginário deles, que responsabiliza os próprios indivíduos por essa exclusão. O “não fazer parte” é dado a eles como um fracasso pessoal, como se eles, na realidade, não tivessem se esforçado o suficiente para alcançar o status social e cultural da classe dominante. O que podemos perceber é que, a perpetuação de desigualdades permite que a responsabilidade pela condição social inferior seja atribuída a eles, encobrindo os reais problemas e desestimulando o pensamento crítico, condicionando-os e alienando-os.

Nesse contexto, poder tirar nossos educandos do espaço escolar formal é, ainda que em uma microesfera, revolucionário. Inesquecível, segundo a própria definição deles. São diversos os fatores desse “inesquecimento”, todos eles dotados de uma humanidade que há tempos não discutimos dentro dos muros da escola. Ela é humanizadora porque é portadora de significados concretos e abstratos, porque transformam nossos alunos em sujeitos, porque eles se apropriam daquilo que é deles também, o direito à cidade, porque são também cidadãos e a cidadania não deveria estar atrelada ao pertencimento a uma determinada classe social. A primeira pergunta que me fizeram quando apresentei a eles nossa proposta de estudo de meio, foi: Mas professora, nós podemos entrar no MASP?

Essa pergunta – aparentemente inocente – está carregada de um imaginário perverso, que foi construído em nossos alunos a partir de diversos sistemas de segregação e exclusão aos quais eles e seus familiares foram submetidos ao longo dos anos, internalizando dentro deles que determinados espaços da cidade e espaços sociais “não são para eles”. Muitos alunos constataram com a nossa ida ao MASP que “nem é tão longe assim”, o que nos explicita bem a construção desse imaginário, o qual a distância social e a internalização de um não pertencimento é muito maior do que a distância física, a distância espacial. “Nem é tão longe assim”, no entanto, a grande maioria dos alunos e seus familiares nunca haviam ido até lá.

Essas internalizações fazem com que eles condicionem suas próprias histórias e narrativas de vida, porque estas estão presas e sujeitas às limitações socialmente impostas, na sua humanidade roubada, ou como afirma Paulo Freire, em sua desumanização. O autor aponta esse processo de desumanização como consequência de situações históricas estruturadas através da relação oprimidos x opressores, onde os opressores, através de suas estruturas e relações de poder “coisificam” os seres humanos, pois estes deixam de ser seres “para si” e passam a ser “seres para os outros”, submetidos a necessidades que lhes são alheias. Assim, a desumanização se faz presente no ser que apenas vive e que não é capaz de refletir sobre si mesmo e saber-se vivendo no mundo. Já o sujeito com a sua humanidade restaurada, reflete sobre a sua vida, no domínio da existência, e se pergunta em torno de suas relações com o mundo.

É a partir disso que Freire aponta a urgente necessidade do processo de humanização através da educação. Nesse processo, os seres humanos devem tomar consciência de sua própria condição de seres desumanizados, por meio de uma conscientização dialógica, para assim, tornarem-se sujeitos no processo educativo, bem como na construção de sua humanidade roubada. Na medida em que o indivíduo identifica-se no processo educativo enquanto sujeito, como ser humano no mundo e com o mundo, dentro do qual as relações de opressão se fazem presentes, criam-se possibilidades para alcançar um entendimento crítico da realidade e de organização e mobilização para a conscientização, possibilitando a transformação. É este o primeiro passo em direção à sua libertação.

Dessa forma, coloca-se como necessário restaurarmos essa humanidade, através de práticas pedagógicas que permitam a dialogicidade e a construção de uma consciência. Eles existem, estão aqui, no mundo e precisamos lutar para que tenham direito à existência e não apenas à sobrevivência.

Como viver o mundo se não podemos pertencer a ele? Como transformá-lo, se não sentimos que podemos e que fazemos parte dele?

É fundamental desenvolvermos com nossos alunos as noções de cidadania e direitos, para que eles possuam, ao longo de suas vidas, uma consciência transformadora e sejam capazes de lutar para ocupar cada vez mais espaços que lhes são historicamente negados, sem culpa, sabendo que aquilo também os pertence.

Enquanto escola, não podemos reproduzir esse sistema que mantém a desigualdade enquanto lógica de sua reprodução e manutenção, que os exclui dos bens materiais e imateriais, que os desumaniza. Devemos questionar isso e também ensiná-los a questionar, gerar movimentos que transformem essa imposição social e ideológica, que criem outras possibilidades, outros caminhos, outros horizontes, que os possibilitem buscar a sua humanidade, o seu ser e estar no mundo, que os capacitem a serem sujeitos e não um produto social. É importante que propiciemos aos nossos educandos experiências que os transformem em indivíduos capazes de operar de forma significativa e cidadã dentro do mundo, para o mundo e com o mundo, para que eles desenvolvam em si e coletivamente com os seus, o protagonismo social, para que eles se libertem, uns aos outros, porque, como também afirma Paulo Freire, “ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.

É esse processo de libertação que, em algum momento do nosso estudo de meio, ao olhar para todos aqueles prédios, toda aquela riqueza, todo aquele dinamismo e toda a beleza presente no estado da arte, permite que eles se dêem conta de que aquilo existe e que eles existem também. É o encontro com algo que antes lhes era exterior, mas que agora caminha em direção a constituição de sua própria identidade e subjetividade. Algo que agora eles são capazes de reconhecer e se reconhecerem também. Aquilo passa a constituí-los enquanto sujeitos, enquanto seres singulares no mundo. É como uma semente, que o tempo não consegue arrancar, porque já criou raiz ali, naquele imaginário. É uma porta que não fecha, é um bem que ninguém os tira. É conhecimento e é libertador.

Foi incrível perceber e fazer parte desse processo de significação e resignificação de mundo, de aprendizagem, de vida, junto deles. Foram muitas as indagações e olhares curiosos para um mundo que, em teoria, pertence a eles, mas que na prática apresenta-se como algo externo e uma realidade completamente distante. Como não se sensibilizar diante da humanidade presente nos comentários: “Professora, aqui é a Av. Paulista? Parece Paris!”, “Vou trazer minha família aqui, eles precisam conhecer”, “Queria morar aqui”, “Obrigada professora, por ter feito isso por nós”.

A gente entra na escola achando que dar aula é sobre ensinar. Até que a gente percebe que, na verdade é, acima de tudo, sobre aprender. Aprender que o ser humano nunca está terminado, que é sempre possível. Às vezes cansa, às vezes dói. Mas é sempre amor. Vale a pena. Que a gente nunca desista do nosso sonho, que como bem disse Paulo Freire, exige que tenhamos em nós a coragem de lutar ao lado da coragem de amar.

Referências Bibliográficas

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 64 ed. Rio de Janeiro/ São Paulo: Paz e Terra, 2017 [1968].

Um comentário sobre “A escola pública e o direito à cidade: a educação enquanto prática da liberdade

  1. Oi…parabéns por cada dia e por cada palavra aqui descrita eu senti um pouquinho da sua verdade que foi o nosso dia a dia e ver isso transcender os muros da escola e encarar os percalços do mundo “selvagem”…PARABÉNS ” você fez isso…

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