Rita von Hunty: Uma flor furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio

por Caio Uehbe

Sempre fui uma pessoa alheia, e até mesmo muitas vezes repulsiva, às novas tecnologias. Não por negar totalmente alguma utilidade nelas, mas, talvez pela minha formação acadêmica, por entender o quanto elas são criadas não visando a real melhoria das condições de vida das pessoas, mas sim, como um meio de facilitar a reprodução ampliada do capital através da maior fluidez global das mercadorias, serviços e do pensamento único legitimado por uma ciência quase totalmente atrelada aos interesses privados, como muito bem coloca Milton Santos em seu livro “Por uma outra Globalização”. Para terem uma ideia de como já resisti bravamente a essas tecnologias contemporâneas, fui ter o meu primeiro smartphone somente em 2018, e não por vontade própria, mas sim por ingressar como professor de geografia em uma dessas escolas que se dizem “tecnológicas”. No final das contas essa “rendição” só serviu para me questionar ainda mais se o que acontece nesse tipo de instituição de ensino pode, de fato, ser chamado de educação, o que no final se tornou a minha pior experiência profissional até então.

Mas, voltando à questão das novas tecnologias, um desdobramento delas, ao qual sempre fui resistente, são os canais do Youtube e lives em geral. Não tenho nem paciência para ouvir mensagem de voz no WhatsApp – aliás amaldiçoo diariamente o inventor de tal forma nefasta de comunicação – e também nunca tive a mínima paciência de ficar parado no computador vendo alguém falar, sempre fui mais adepto dos bons livros e bons textos. Porém, durante esse período de quarentena acabei me rendendo, por incentivo e indicação da minha esposa, Eliana Scaravelli, que também escreve nesse blog,  e começamos a acompanhar e assistir um canal no Youtube chamado “Tempero Drag”, apresentado por Rita von Hunty, uma Drag Queen maravilhosa.

Assistir ao “Tempero Drag” foi uma grata surpresa que quebrou, em partes, minha resistência a tais formas de mídia. Ao ver a “Ritinha”, como carinhosamente eu e minha esposa a chamamos, vi materializado nela todo o espírito inspirador por trás da criação deste blog. Ela personifica o espírito com o qual criei o “Tropicalizando-se” de uma forma que eu, como idealizador do blog, jamais seria capaz de fazer. Rita von Hunty encarna todo o sentimento contido no texto de apresentação desse blog, quebra estereótipos, se reinventa, transgride, agride e acalanta ao mesmo tempo, é sagrada e profana, faz arte e política e, sobretudo, educa! Resumidamente, é simplesmente genial!

Ela consegue de uma forma didática, de fazer inveja ao mais exímio educador, apresentar conceitos complexos relacionados com situações contemporâneas com uma necessária pitada de sarcasmo sem perder a seriedade do assunto abordado. Quando digo que seu canal quebrou em partes a resistência que tenho por tais formas de mídia, é porque, como ela deixa bem claro em seu canal, não basta assisti-la e assistir outros canais para se aprofundar e de fato conhecer o conceito e conteúdo que ela aborda. Mais do que simplesmente tentar dar conta de esgotar o assunto abordado em cada programa, ela leva seus espectadores, como deve fazer um bom educador, a querer ir além, dando os meios para isso através de uma lista de referências bibliográficas fantástica, com autores essenciais para a compreensão do mundo contemporâneo e dos assuntos abordados, sendo grande parte desses autores marxistas como eu.

Assistir ao “Tempero Drag” é terapêutico em momentos como o que vivemos. Terapêutico no sentido que acende e fortalece a chama da esperança, da indignação e da revolta, tão necessárias para a resistência e uma transformação verdadeiramente revolucionária. Essa chama é acesa e alimentada graças à sensibilidade com que os temas são abordados, não há como não se comover com a emoção contida nas palavras dela ao se referir ao cruel assassinato do menino Miguel em Recife. Essa chama é fortalecida também através da práxis, que nada mais é que uma teoria prática revolucionária, trazida em cada episódio, subsidiando a nossa luta e esperança. Uma esperança que vem do verbo esperançar e não do verbo esperar, como diria Paulo Freire. Esperançar freirianamente é se levantar, ir atrás, construir e não desistir! É levar adiante, é juntar-se com outros para fazer de outro modo… Não haverá uma real transformação da sociedade sem uma ação subsidiada por uma teoria revolucionária, e toda teoria que se diz revolucionária deve estar aliada à prática!

Se você, assim como eu há alguns meses atrás, ainda não conhece o canal e a Rita, não perca mais tempo e vá conhecê-la. Em um de seus episódios que mais me marcaram, “Ritinha” encerrou recitando o poema “A flor e a Náusea” de Carlos Drummond de Andrade, um poema e um autor que tem um enorme significado em minha vida e, ao vê-la recitando o poema, imediatamente vi nela a flor descrita por Drummond. Uma flor que veio para furar o enrijecido asfalto no coração das pessoas, para romper com o nosso tédio, com o nojo e com o ódio.

2 comentários sobre “Rita von Hunty: Uma flor furando o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio

  1. Muito bom o seu texto sobre Dona Ritinha. Você conseguiu traduzir tudo o que ela representa para nós, principalmente nos dias atuais. Ela não só nos inspira, como também, nos confronta e nos faz sair da nossa comodidade. Pessoas como Rita von Hunty é mais que necessária na atualidade.

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