Lutamos porque Gente é pra Brilhar e Amar

por Caio Uehbe

Acredito que o estado de angústia, ansiedade, desânimo e, porque não, desesperança, acomete uma parcela muito grande das pessoas, em especial as que por ventura vieram a nascer em uma parte do planeta demarcada e chamada de Brasil. Em meio a tantas notícias desesperadoras, são raros os momentos em que conseguimos ter paz ou um pequeno instante em que a chama que nos move dá sinais de reascender. Hoje tive um desses breves e raros momentos ao receber um vídeo feito por uma professora de uma escola estadual de São Paulo junto com seus estudantes.

Não sei se foi o contexto em que vivemos, a música do Caetano, a pureza dessas crianças ou a soma de tudo isso… Mas, confesso que chorei como há tempos não fazia. E, no meio das lágrimas, que simplesmente caiam pelo meu rosto por mais que eu resistisse, comecei a refletir sobre o porquê dessas lágrimas. Isso me fez lembrar uma rápida conversa que tive esses dias com um querido amigo por WhatsApp sobre amor e revolução! E aí está o motivo desse vídeo ter feito lágrimas caírem involuntariamente sobre meu rosto! O amor, amor que está na essência do motivo pelo qual eu e qualquer pessoa que se considera de esquerda deveria lutar! Lutamos, militamos e agimos movidos por amor. Como sabiamente disse o Comandante Che Guevara, “o verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”.

Mas que amor seria esse que nos faz lutar, nunca desistir, seguir em frente, mesmo quando tudo parece nos levar ao contrário? Paulo Freire define muito bem o que seria esse amor, “um profundo amor ao mundo e aos homens. (…) um ato de coragem, nunca de medo, o amor é compromisso com os homens. Onde quer que estejam estes, oprimidos, o ato de amor está em comprometer-se com sua causa. A causa de sua libertação” (Pedagogia do Oprimido). Amor esse que jamais será ódio. Ódio que, aliás, é o oposto do amor. Amor que pode e deve ser raiva, raiva e indignação, que somados se transformam em revolta. Revolta contra as diversas formas de opressão que existem em nossa sociedade. A opressão policial sobre a população pobre, negra e periférica; a opressão patriarcal dos homens sobre as mulheres; a opressão da ignorância para com os homossexuais; a opressão de uma divisão social do trabalho que aliena as pessoas, que as exclui, explora e, que, portanto, as desumaniza! Opressões que são, todas elas, fruto do ódio.

Aliás, é esse ódio que gera a nossa revolta, a nossa indignação, a nossa raiva, o nosso amor e, desse modo, é também a razão pela qual lutamos. Ódio esse que gerou os piores períodos e as maiores atrocidades da história da humanidade, da história do nosso país. Ódio que resultou em um golpe em 1964, um golpe contra o povo, um golpe contra a civilização, um golpe desumano. Mas, nosso amor ao mundo e aos homens nos levou a lutar contra esse golpe, seja através de palavras, através de canções ou indo, em muitos momentos, para as vias de fato. O que significou, para muitos de nós, a abdicação de uma vida toda para através da luta construirmos uma nova vida não somente para nós, mas para toda a sociedade. Porém, aqueles que odeiam, os responsáveis por tal desumanização extrema, os que institucionalizaram o terror, junto com seus cúmplices, nos chamaram e ainda nos chamam de terroristas, nos encarceraram, nos torturaram, nos executaram, nos exilaram, mas não conseguiram com isso apagar o nosso amor, a nossa raiva, a nossa indignação, e a nossa luta continua! Continua, mesmo com a retomada dos odiosos ao poder. Continua, pois como disse Caetano:

Gente é pra brilhar
Não pra morrer de fome

Gente deste planeta do céu de anil
Gente, não entendo
Gente nada nos viu
Gente espelho de estrelas
Reflexo do esplendor
Se as estrelas são tantas
Só mesmo o amor

É pelo futuro de cada uma dessas crianças que aparecem no vídeo, crianças que não conheço, mas que amo, porque acredito no direito delas de serem felizes, de terem uma vida digna, de se realizarem enquanto pessoas e, no contexto atual, de viverem. É por essas e por tantas outras pessoas que luto e que lutam os que com orgulho posso chamar de companheiros.

Gente viva, brilhando estrelas na noite
Gente quer comer
Gente que ser feliz
Gente quer respirar ar pelo nariz
Não, meu nego, não traia nunca
Essa força não
Essa força que mora em seu coração

(Caetanos Veloso, Gente)

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