Ira! A Linha de Frente do Rock Nacional Contra o Conservadorismo

por Caio Uehbe

Recentemente vi uma notícia em que um pseudo roqueiro tupiniquim proferiu ofensas em suas redes sociais a um dos maiores gênios da música brasileira, o guitarrista e compositor Edgard Scandurra. Esse pseudo roqueiro ironicamente previu o seu próprio futuro ao compor a música “Jesse Go”, um imbecil que pensou na ideia de tornar-se um mito e se atrapalhou na própria glória. Entretanto, essa postagem não foi feita para falar dele, mas sim, da banda que considero a melhor de rock nacional, o Ira!.

Falar do Ira! é de certa maneira falar um pouco da minha história. O Ira! foi a banda que acompanhei durante toda a minha adolescência, o convívio com os músicos e amigos que fiz nos shows contribuiu muito na formação da minha identidade.  Eu tinha apenas 13 anos quando fui ao meu primeiro show da banda, no SESC Ipiranga, um show que não tinha muita gente, pois eles ainda estavam voltando à cena com o recém lançado “Isto É Amor”. Aquele foi o primeiro de uma infinidade de outros tantos shows… No final, eu entrei no camarim, graças ao baterista André Jung, com quem tenho contato até hoje. Lá, tive a oportunidade de conversar com a banda e, a partir de então, mais do que nunca, a chama musical que já havia dentro de mim estava acesa.

Para além desse convívio, o contato com a obra completa da banda foi algo, realmente, engrandecedor, um engrandecimento que talvez na época eu não tivesse dimensão. Vivemos momentos extremistas e, infelizmente dentro do rock e até mesmo na cena punk, esse extremismo é corriqueiro. Um extremismo de virar o nariz e criticar qualquer novidade que fuja de uma pré-estabelecida concepção do que deve ser feito em termos de atitude e musicalidade. O Ira! sempre teve algo a mais em relação às demais bandas, por conseguir compor músicas que captam o espírito da juventude e porque conseguiu fazer, durante toda a sua carreira, um rock da melhor qualidade, rompendo com esses estereótipos e flertando com as mais variadas vertentes da música nacional e internacional, ou seja, é uma verdadeira banda de rock que tropicalizou-se! Como coloco na apresentação deste blog, tropicalizar-se é misturar samba com rock, funk com punk e, por que não?, fazer o boogie-woogie de pandeiro e violão, com um beat eletrônico produzido no Japão!!! E o Ira!, por mais incrível que pareça, fez tudo isso, até mesmo uma turnê pelo Japão!

“Quero desfrutar por ser jovem das coisas que me são proibidas”… Nesse trecho de “Coração” é possível notar essa pré-disposição da banda em inovar, misturar e transgredir desde os primeiros discos. Evidentemente que com o passar do tempo e a maturidade natural que toda banda adquire, ou deveria adquirir, isto se torna mais explícito, mas no disco de estreia “Mudança de Comportamento”, que aliás é uma obra prima, já somos surpreendidos de cara com o groove alucinante de Edgard Scandurra na música “Longe de Tudo”. “Mudança de Comportamento” é um disco que flerta com o punk e com o som Mod inglês, sabendo dosar esse flerte com baladas românticas como “Tolices” e a música que dá nome ao disco. Mistura de alta qualidade que se mantém no disco seguinte “Vivendo e Não Aprendendo”, que diferentemente do nome, nos mostra que eles aprenderam e muito como fazer um disco de rock! A banda mantém o mesmo flerte com a música negra estadunidense na ousada canção “Vitrine Viva”, trazendo também verdadeiros clássicos como “Envelheço na Cidade”, “Dias de Luta”, “Gritos na Multidão” e a polêmica “Pobre Paulista”. Esse disco ainda traz uma aposta sonora com o uso de violinos na música “Flores em Você”, que acabou virando música tema da novela “O Outro”.

“Eu fico tentando me satisfazer
Com outros sons, outras batidas, outras pulsações
O planeta é grande e eu vou descobrir
Muitas respostas as minhas perguntas agora”

(Farto do Rock’n’Roll)

Se os dois primeiros discos já davam sinais de que a banda não se contentaria em cair na mesmice do rock, o terceiro é realmente um salto e a consolidação do Ira! como uma banda em um patamar acima das demais! Psicoacústica, de 1988, é simplesmente um disco sensacional e ousado! “Fartos do Rock’n’roll”, eles produziram um dos maiores discos de rock da música brasileira! Temos rock, rap, samba, reggae, faroeste, punk… perco até o fôlego ao ouvir e recordar uma preciosidade como esta! Apesar de meu disco preferido ser o “Meninos da Rua Paulo”, lançado três anos depois, o “Psicoacústica” é um divisor de águas na trajetória da banda, fazendo um paralelo com os ingleses do The Clash, esse disco é o London Calling do Ira!.

Nesse mesmo ano, Nasi e André Jung produzem duas músicas do Thaíde para a coletânea “Hip Hop cultura de rua”, que no ano seguinte levou à gravação do LP “Pergunte a quem conhece”, também produzido pela dupla. Ou seja, a banda nunca se limitou aos rótulos e tolices de gêneros musicais, o que fica muito evidente nos projetos solos e paralelos dos integrantes, com destaque para o “Nasi e os Irmãos dos Blues”, “Os Alquimistas”, banda de surf music de Ricardo Gaspa, que também já tocou em bandas de rockabilly, “Urban ToTem” um projeto experimental muito bom de André Jung, sem falar do multi-instrumentista Edgard Scandurra que, com certeza, está no rol de maiores guitarristas do mundo! Além de discos solo como o “Amigos Invisíveis”, Scandurra ainda tem discos com uma pegada mais eletrônica com o Benzina e participou de discos de diversas bandas e cantores, como Arnaldo Antunes, Lobão e as Mercenárias.

Os anos 90 foram realmente difíceis para o Brasil e, em especial, para a música brasileira. Mas, foi nessa época que a banda surfou em outras ondas, nas quais o seu guitarrista já surfava havia um tempo, a música eletrônica. Confesso não ser um grande admirador de música eletrônica, mas somente uma banda composta por músicos tão geniais seria capaz, em meio à toda turbulência do período, de fazer um disco de rock de alta qualidade com uma forte influência da música eletrônica. “Você Não Sabe Quem Eu Sou” foi um disco em que fui viciado por um bom tempo!

“Sei, velhos vícios que herdei, se multiplicam no meu sangue. Correnteza que me arrasta. Sem ter onde me agarrar. É a queda incontrolável, vertiginosa”. (“Correnteza”)

Na sequência a banda emplacaria o “Isto É Amor”, um disco maduro, para quebrar preconceitos roqueiros com a MPB, com regravações de Tim Maia, Chico Buarque, Erasmo Carlos, Lô Borges, Dalton, Ritchie, Ronnie Von, enfim, mostrando que uma banda de rock de qualidade se faz com influências que estão muito além do rock. A partir de então, o nebuloso anos 90 daria lugar para um ressurgimento com toda a força do rock no cenário nacional. Com a gravação do Ao vivo MTV, para inaugurar bem o novo século, a banda se recoloca novamente como uma das maiores bandas do Brasil, resultando na gravação do Acústico MTV, quatro anos depois, em 2004.

“Mas essa vida é passageira, chorar eu sei que é besteira… mas meu amigo não dá pra segurar”. Não consigo pensar em outra frase para resumir o sentimento que tive em 2007 com o anúncio do fim da banda. Emoção também difícil de segurar ao presenciar a volta da banda na Virada Cultural da Cidade de São Paulo no ano de 2014. Apesar da ausência de André Jung e Ricardo Gaspa, presenciar novamente um show do Ira! foi nostálgico, emocionante, era como estar vivendo um tempo que não volta mais. Mas, o melhor talvez ainda estivesse por vir.

Confesso que não tinha grandes expectativas de uma volta triunfante da banda, com novas músicas, turnê, etc. porém, em meio à pandemia, fui surpreendido com o lançamento de um disco de inéditas. Um disco que vêm em um momento muito importante e que, mais uma vez, coloca a banda na linha de frente da música brasileira. O disco, que leva o próprio nome da banda, é uma amostra de tudo o que foi a banda nesses quase 40 anos de existência, trazendo letras contundentes e um instrumental impecável, que não deixam a desejar a nenhum disco anterior. A primeira música de trabalho “O Amor Também Faz Errar” nos mostra que, mesmo errando, ao final, acertamos quando movidos por amor! É uma música simplesmente fantástica!

Em um momento em que estamos sendo afrontados em nossas subjetividades por um governo de forte caráter nazifascista que ascendeu ao poder em meio a um discurso misógino e conservador que culminou no golpe contra uma presidenta democraticamente eleita, a banda que nunca teve medo de se posicionar, mais uma vez se coloca na linha de frente contra os retrocessos que vivemos com a linda canção “Mulheres À Frente da Tropa”, uma música com forte influência dos ritmos africanos que na hora me fez imaginar as grandes Deusas africanas com suas lanças nos guiando para um mundo além do patriarcado e do machismo que vitima tantas mulheres no Brasil e no Mundo. O Ira! não é a maior banda de rock do Brasil apenas por sua trajetória musical, mas também pela sua postura e enfrentamento aos retrocessos conservadores pelo qual nosso país sempre passou e ainda, infelizmente, passa!

“Eu quero lutar, mas não com essa farda”. Se no início dos anos 80, a música “Núcleo Base” mostrava a insatisfação contra vestígios da ditadura militar em nosso país, como o serviço militar obrigatório, em o “Homem Cordial Morreu”, a banda mostra a importância das relações humanas que construímos ao longo da nossa vida como uma forma de nos mantermos fortes para as novas e duras batalhas que temos à nossa frente!

“Sim, eu resolvi mudar
Aprendi a respirar
Olhar com outros olhos e reconsiderar
Que além de envelhecer
Difícil é aprender
Com o que já se viveu
E se eu me entrincheirar contra o opressor
Que seja a seu lado
Lado a lado, por favor”

Que esse seja o primeiro de muitos outros discos nessa nova fase da maior banda de rock do Brasil e, quem sabe no futuro, de presente para todos os fãs, não tenhamos Nasi, Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa e André Jung de mãos dadas entrincheirados contra o opressor! Ano que vem a banda completa 40 anos e “Você Ainda Pode Sonhar”!!

Um comentário sobre “Ira! A Linha de Frente do Rock Nacional Contra o Conservadorismo

  1. Texto muito bom. Sempre gostei de Ira! e ainda me lembro do primeiro show que fui em Mongaguá no ano de 2002. Baita banda! Beberam e muito da fonte do The Clash e isso sempre me agradou.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s