Ana Cañas: Um Coração Selvagem com muito a nos dizer

por Caio Uehbe

“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol

Quando você entrou em mim como um Sol no quintal”

Os primeiros versos de a “Divina Comédia Humana” de Belchior sintetizam de forma atemporal os tempos em que vivemos. As angústias contemporâneas são muito mais profundas que um simples gol que simbolicamente pode significar uma sensação quase insuportável de um fracasso pessoal em um momento em que o coletivo de nós depende. Desse modo, nossas angústias não deixam de ser individualizadas nos tempos em que vivemos, como por exemplo a angústia de mães e pais que sustentam seus lares e se deparam com a impossibilidade de realizarem esse sustento em meio à crise econômica e social contemporânea, uma crise do desemprego e do subemprego, quase servil, que se intensificou com a pandemia.

Existe também uma angústia que é coletiva e que se agravou com a eleição de um tirano sociopata como chefe de estado. É a angústia de vermos as nossas singularidades e de nossas companheiras e companheiros de batalhas sendo colocadas em cheque e, mais do que isso, na concretude dessas singularidades determinarem o direito ou não de nós existirmos diante ao discurso de ódio a nós propagado pelos meios institucionais. A tudo isso se soma também a angústia de perdermos pessoas próximas e queridas em meio a uma pandemia que caiu como uma luva a um governo genocida em seu projeto de eliminação das minorias, projeto materializado através do negacionismo e da inação frente a grave crise de saúde.

Mas em meio a todo esse revés, às vezes, pequenas coisas são capazes de nos trazerem uma luz no final do túnel, entrando em nossa vida como um sol, como bem diz o segundo verso da música de Belchior, nos dando forças para enfrentarmos essa adversa situação. Uma força que não é individual, mas que é uma construção coletiva. Nessa pandemia presenciei alguns momentos que serviram como esse combustível à esperança e à luta contínua, como já mostrei nos meus posts anteriores “Lutamos porque Gente é para Brilhar e Amar” e “Rita Von Hunty: Uma Flor Furando o Asfalto, o Nojo e o Ódio”.  Esse texto vai justamente falar de mais um desses momentos ímpares em meio a essas trevas. Trata-se do grato presente que nos deu Ana Cañas em seu novo projeto cantando músicas de Belchior.

“Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo” dá nome ao quinto álbum de Belchior, que seria muito mais apropriado se chamar “Era uma vez um homem à frente do seu tempo’ ou um até mesmo “um homem atemporal”. Ouvir as suas músicas em 2020 é como se estivéssemos ouvindo alguém falar do Brasil atual. “Ano passado, apesar da dor e do silêncio / Eu cantei como se fosse morrer de alegria / Hoje eu lhe falo em futuro e você tira o revólver / Puxa o talão de cheque e me dá um bom dia”, como não ouvir “Clamor no Deserto” e fazer um paralelo com esse Brasil arcaico e conservador no qual os governantes e seus cúmplices tentam nos impor a força suas vontades e valores? Onde o revólver é diariamente apontado sobre nossas cabeças pelas milícias aliadas e fortalecidas pelo governo e os cheques escusos avolumam as contas de seus familiares e as perguntas que não querem calar são “por que Michelle recebeu R$ 89 mil de Queiroz?” e “Quem matou Marielle Franco?”.

Belchior já teve suas músicas interpretadas por célebres vozes de nossa música, sendo a mais consagrada de todas a versão de Elis Regina para a também atemporal “Como Nossos Pais”. Como não se arrepiar com Elis gritando ferozmente “Você pode até dizer que eu ‘tô por fora ou então que eu ‘tô inventando… Mas é você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem!”. Mas como fazer a obra desse poeta genial chegar as novas gerações servindo de inspiração nessa batalha constante, e quase eterna em nosso país, por direitos e liberdades? Nada mais propício para isso do que suas canções serem interpretadas mais uma vez por um grande nome da nossa música, talvez a mais importante voz da nova MPB, Ana Canãs, que nos agraciou nessa quarentena com uma live interpretando os maiores sucessos de Belchior e nos presenteando com a notícia de que esse projeto se transformará em um disco!

Ana Cañas é uma artista fantástica, a qual esse blog muito admira, não somente pela sua qualidade musical, para quem não conhece sua obra recomendo o disco “Tô na Vida” de 2015 como um excelente primeiro contato, disco que já está com certeza no hall dos melhores discos da música brasileira, mas também a cantora merece nosso respeito e admiração sobretudo pelas suas posições políticas e pela sua coragem de se expor publicamente sem receio das possíveis retaliações. Uma exposição corajosa que vem se intensificando nesse momento crucial em que vivemos em nosso país!

Assim como Belchior que em suas canções trouxe questões que tocam nossa alma e estão na essência de nosso ser, Ana Cañas também nos mostra que “Amar e Mudar as Coisas Interessa Mais” como em seu clipe da releitura da música “Eu Amo Você” de Tim Maia, eu digo uma releitura pelo clipe mostrar um amor entre duas mulheres, o que certamente não havia sido pensado na canção original, um assunto que para nós pode parecer batido, mas que infelizmente ainda não é. Uma prova disso é a exigência de comprovação de idade para poder assistir ao clipe no YouTube, como se o amor entre duas pessoas do mesmo sexo fosse imoral! Exigência não feita quando se tratam de casais heterossexuais.

Belchior falou como artista se importar muito mais em cuidar da felicidade das pessoas do que do Produto Interno Bruto, e é justamente isso que faz Ana Cañas ao defender em suas músicas o direito as mais variadas formas de amor, o direito das mulheres ao orgasmo e ao prazer no ato sexual, na exaltação das diferentes belezas para além dos padrões estabelecidos e por acreditar “no amor, na lâmina da vida, na beleza dos rolê, na luz, na poesia, no bem sem ver a quem, na vereda louca da esquina e, ainda que nem sempre dos homens, na justiça, na beleza das cores, na liberdade das crenças (pois) a alma desconhece as diferenças” (música TODX).

Ana Cañas tem um “Coração Selvagem” com pressa de viver e que clama por mudanças! Mas não qualquer mudança, uma mudança de comportamento, que amplie direitos, liberdades, uma mudança movida pelo amor! Onde “a luta é coração que sangra e bate forte a esperança de um povo que quer o seu direito, todo respeito” (Viverei). De uma coisa eu tenho certeza, que a arte tem muito a contribuir para essa mudança pois o passado é uma roupa que certamente não nos serve mais! E no que depender de artistas como Ana Cañas “uma nova mudança, em breve, vai acontecer”! pois precisamos sempre rejuvenescer!

       Você pode contribuir para que esse projeto magnífico da Ana Cañas cantando Belchior aconteça através da vaquinha virtual.

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ana-canas-canta-belchior-vamos-gravar-o-disco

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